“O Pedro que se aguente; passa o verão na casa de campo!” disse João, irritado, enquanto Ana olhava em silêncio para um e‑mail que mudara tudo

Histórias
A decisão cruel revelou um egoísmo intolerável.

Maria ajeitou o chapéu, contrariada, como se aquele atraso fosse uma ofensa pessoal.

— Eu bem te disse, João, que devíamos ter vindo sem ela. Ficava-lhe a viagem para o ano. Nós descansávamos na mesma, e eu ainda aproveitava para aquecer estas articulações.

— Mãe, chega.

João torceu o rosto, impaciente.

— Já foi difícil convencê-la como foi.

Nesse instante, no meio da multidão, surgiu um casaco conhecido. Ana avançava na direção deles com passo firme. Ao seu lado, a tentar acompanhá-la com as perninhas apressadas, Pedro arrastava uma mala infantil em forma de pinguim, que parecia maior do que ele.

João ficou sem reação. O sorriso que ensaiara desapareceu-lhe da cara.

— Ana? O que é que ele está aqui a fazer?

Ela parou a menos de um metro do marido. Não parecia nervosa, nem irritada. Estava apenas estranhamente serena.

— Como assim? Vai para a praia.

João lançou um olhar aflito para a fila do balcão número quarenta e dois. Algumas pessoas já começavam a prestar atenção.

— Ana, tu perdeste o juízo?

Aproximou-se dela e baixou a voz até ficar num sussurro áspero.

— Nós falámos disto ontem! Ele não está incluído na reserva! Eu expliquei-te. Metemos a minha mãe no lugar dele. Assim não nos deixam embarcar!

Maria avançou sobre a nora com a expressão de quem ia travar uma batalha.

— Ana, isto já passa todos os limites. Queres traumatizar a criança? Trouxeste o miúdo para o aeroporto para, daqui a nada, o mandares voltar para casa? Entrega os documentos ao João e põe o Pedro num táxi.

O menino encostou-se assustado à perna da mãe.

— Eu não vou para lado nenhum de táxi.

Ana apertou-lhe a mão com mais força.

— Menina, se faz favor!

João perdeu a paciência e precipitou-se para o balcão de check-in, empurrando sem querer um homem de mochila.

— Veja a nossa reserva. João Silva, Ana Silva e Maria Silva.

A funcionária, de lenço ao pescoço e expressão imperturbável, começou a escrever no teclado.

— Sim, estou a ver. Três passageiros. Os documentos, por favor.

João virou-se para a mulher com ar triunfante.

— Ouviste? Três passageiros. Ana, não faças figuras. Dá-me os cartões de cidadão. Estamos a atrasar toda a gente.

— Tens razão, João.

Ana tirou o próprio documento do bolso.

— São três passageiros.

Depois recuou um passo.

— Só que eu não vou convosco.

A mão de João ficou suspensa no ar.

— Como assim, não vais?

— Assim mesmo.

Ana abriu a mochila e retirou duas folhas impressas, dobradas ao meio.

— Foi uma sorte eu ter visto o teu portátil há três semanas. Enquanto tu preparavas a tua surpresa, eu tratei da minha. Levantei da nossa conta poupança exatamente a minha metade. A minha. E juntei o subsídio de férias. Chegou à justa para dois.

Ergueu os papéis, deixando que João os visse.

— Eu e o Pedro vamos para outro destino. Porto Santo. Partimos do Terminal 2. O nosso voo é daqui a duas horas.

Maria endireitou-se de repente, como se só então tivesse entendido o alcance daquelas palavras.

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