Maria ficou de boca entreaberta. A arrogância com que até ali se mantivera evaporou-se num instante.
— Tu… tu levantaste dinheiro da conta comum?
— Levantei a minha parte, Maria. Só a minha. A que ganhei com o meu trabalho.
Ana fitou a sogra com uma frieza tão firme que a mulher deu meio passo atrás sem se aperceber.
— E nós? — soltou Maria, já sem a mesma segurança.
João ficou vermelho às manchas. Avançou para a mulher, tentando agarrar-lhe os documentos, mas Ana recolheu-os com calma e voltou a guardá-los na mochila.
— Vocês seguem viagem, como tinham combinado.
A voz dela saiu lisa, sem tremor, quase tranquila.
— O quarto é ótimo. Para duas pessoas. O mar está à vossa espera, podem descansar, tratar das dores, comer sobremesas, passear devagar. Ninguém vos atrapalha, ninguém exige chapéus, protetor, brinquedos ou atenção. Umas férias perfeitas para um homem adulto e para a mãe dele.
— Ana, volta já aqui!
João perdeu o controlo e gritou. As pessoas na fila viraram-se descaradamente para eles.
— A reserva era para três! A tua parte está paga!
— Então pedes o reembolso pela agência. Ou ficam os dois no quarto, com todo o conforto, como sempre quiseram.
Ana virou-se para o filho, que assistia a tudo em silêncio, apertando a alça da pequena mochila.
— Vamos, Pedro. Ainda temos de passar pela segurança.
— Espera lá!
João rodou bruscamente para a mãe. O rosto dele contraiu-se de raiva.
— Foste tu que estragaste a minha mulher, mãe!
Abanou as mãos, fora de si.
— Eu avisei que isto ia acabar mal! Eu disse que ela ia fazer uma cena! Disse que não devíamos ter alterado nada às escondidas! A ideia foi tua!
Maria aprumou-se, ofendida até à raiz dos cabelos.
— Agora a culpa é minha?
Apontou-lhe o dedo ao peito.
— Foste tu que disseste que ela só ia perceber no aeroporto! Foste tu que garantiste que, posta perante os factos, não teria por onde fugir! És um molengão, João, não és homem nenhum! A tua mulher passa-te por cima e tu ainda pedes desculpa!
Ana não ficou para ouvir qual dos dois tinha sido o autor daquela brilhante estratégia. Limitou-se a pegar na mão de Pedro e afastou-se.
Durante algum tempo, ainda lhe chegaram ecos da discussão. A voz aguda de Maria misturava-se com as justificações atabalhoadas de João, enquanto ambos discutiam junto ao balcão de check-in, alheios aos olhares irritados e ao murmúrio crescente das pessoas à volta.
Duas semanas depois, Ana estava recostada numa espreguiçadeira de plástico, a observar Pedro construir um castelo enorme com areia molhada.
O mar roçava suavemente os seixos da praia, num vaivém baixo e sereno. O sol descia devagar, tingindo a água de tons rosados e dourados. Havia sal no ar, calor na pele e uma paz tão ampla que parecia ocupar tudo.
O telemóvel, pousado na mesinha ao lado, vibrou uma vez. Mais uma mensagem de João. A quinta só naquele dia.
“Aninha, já chegámos. Temos de falar. A minha mãe não me largou as orelhas, as férias foram um inferno. Volta para casa e conversamos sobre o que vamos fazer daqui para a frente.”
Ana passou o dedo pelo ecrã e apagou a notificação sem abrir a conversa.
Depois pegou no copo frio de sumo, fechou os olhos por um momento e inspirou fundo o cheiro do mar. O castelo de Pedro estava a ficar magnífico.
E, quanto ao resto, Ana não tinha absolutamente nada a discutir.
