No pedido, incluiu truta, bifes ribeye, queijo fresco de produtor, queijos caros e fruta escolhida. Ao todo, cerca de cento e cinquenta euros.
Quando a entrega chegou, Ana não deixou nada ao acaso. Guardou cada embalagem com cuidado no pequeno frigorífico novo, agora instalado ao lado da cama, como se estivesse a organizar mantimentos para uma expedição.
Na cozinha, o frigorífico grande permanecia vazio, desligado da tomada e fechado com o cadeado que ela própria tinha mandado prender.
Depois disso, tomou um duche demorado. Pôs uma máscara no rosto. Preparou café.
Sentou-se à mesa da cozinha com a chávena entre as mãos e ficou à espera.
A primeira a chegar foi Beatriz.
Trazia um saco de batatas fritas numa mão e, na outra, uma lata de energético barato.
— Credo, está um gelo lá fora — resmungou ainda à entrada.
Atirou o casaco para cima do banco do corredor e entrou na cozinha sem sequer olhar bem para Ana.
Ana continuou a beber o café em silêncio.
Beatriz aproximou-se do frigorífico, agarrou a pega e puxou. A porta não se mexeu.
Tentou outra vez, com mais força. O cadeado bateu no metal com um ruído seco.
A rapariga ficou imóvel, a encarar as dobradiças de aço.
— O que é isto?
— Um cadeado — respondeu Ana, sem levantar a voz.
— Para quê?
— Para tu deixares de comer à minha custa.
Beatriz perdeu a cor.
— Tu não estás boa da cabeça. Abre já isto. Quero ketchup para as batatas.
— Não há ketchup nenhum aí dentro. Aliás, não há nada. O frigorífico está desligado. A minha comida está no meu quarto. E o quarto está trancado.
Beatriz apertou os punhos.
— O João não vai gostar nada disto!
— O João pode ir chorar para a casa de banho, se quiser.
Furiosa, Beatriz pegou no telemóvel e começou a marcar o número do irmão, com os dedos a tremerem de raiva.
— João! Esta maluca pôs um cadeado de armazém no frigorífico! — gritou para o aparelho. — Sim! Aparafusou aquilo mesmo na porta!
Ana terminou o café, lavou a chávena com calma, voltou para o quarto e fechou-se à chave, dando duas voltas completas.
Uma hora depois, João chegou como uma tempestade.
Ana ouviu a porta de entrada bater com força, os passos pesados pelo corredor e, logo a seguir, a voz dele a rebentar na cozinha.
Pouco depois, começaram a esmurrar a porta do quarto.
— Ana! Abre já esta porta!
Ela pousou o livro que estava a ler, levantou-se sem pressa, rodou a chave e abriu.
João estava à sua frente, vermelho de fúria.
— Mas o que é que te deu? Estragaste o frigorífico porquê?
— Não o estraguei. Fiz-lhe uma atualização.
— Tira já esse cadeado! Tenho fome! Passei o dia inteiro metido na garagem!
Ana encostou-se ao aro da porta, tranquila.
— O cadeado fica onde está. A partir de hoje, as contas separam-se. Eu pago a prestação da casa. Tu pagas a tua irmã e os vossos estômagos.
— Eu sou teu marido! Tens obrigação de me fazer o jantar!
— Em que lei é que isso vem escrito?
— No casamento!
Ana soltou uma gargalhada curta, sem alegria.
— No casamento dão uma certidão. Não dão um documento de adoção de um adulto inútil e da irmã dele.
João tentou afastá-la com o ombro para entrar no quarto.
— Sai da frente! Tens comida aí dentro! Eu sei que tens!
Ana empurrou-o no peito com as duas mãos. Com força. Ele cambaleou para trás, no corredor.
— Se voltas a tocar em mim ou nesta porta, chamo a polícia. E digo que tentaste agredir-me.
— Estás só a fazer teatro.
— Experimenta.
Ela fechou a porta na cara dele e rodou a chave.
Do outro lado, continuaram os berros, os insultos e as pancadas. João telefonou à mãe. Pela gritaria, Maria devia estar a aconselhá-lo a arrombar a porta.
Mas ele não teve coragem. Acabou por dar um pontapé na parede e arrastou-se para a cozinha. Mais tarde, Ana ouviu novamente a porta de entrada bater: João tinha ido ao supermercado.
A segunda-feira passou. Veio a terça.
As novas regras revelaram-se implacáveis. Ana preparava as próprias refeições no quarto, usando a panela elétrica, ou então mandava vir comida pronta. Lavava logo a loiça que sujava e guardava-a consigo.
Na cozinha, instalou-se uma espécie de abandono.
Beatriz e João compraram uma embalagem de ravioli congelado e salsichas baratas. O problema era simples: não tinham onde as cozinhar. Ana levara as panelas para o quarto.
Na quarta-feira à noite, Ana saiu para ir buscar água.
Encontrou João a fritar salsichas na prancha de cabelo de Beatriz. O cheiro que pairava no ar era enjoativo, uma mistura de gordura queimada e plástico quente.
— Vais estragar isso — observou Ana.
João lançou-lhe um olhar carregado de ódio. Tinha olheiras fundas, como se não dormisse há dias.
— A culpa é tua! Foste tu que nos obrigaste a chegar a este ponto!
Beatriz estava sentada à mesa, a roer massa instantânea seca diretamente do pacote.
— Ana, por favor — pediu ela, com uma voz chorosa. — Ao menos deixa-me aquecer a chaleira. Só quero beber um chá quente.
— A chaleira é minha. Custou-me sessenta euros. Podem aquecer água numa caneca com uma resistência elétrica, se tiverem uma.
