— Cabra — rosnou João por entre dentes.
Ana virou apenas a cabeça na direção do marido. O rosto dela não denunciava nem raiva nem hesitação; parecia, pelo contrário, ter finalmente chegado a uma decisão que já vinha a amadurecer há muito.
— Amanhã saem daqui. Os dois.
A frase caiu no ar com um peso seco, como uma pedra atirada para cima da mesa.
João ficou imóvel, ainda com a salsicha a meio de fritar.
— Saímos para onde?
— Para casa da tua mãe. Para um hotel. Para o fim do mundo, se quiserem. É-me indiferente.
— Eu moro aqui! — berrou ele, vermelho de fúria.
— Estás registado aqui de forma temporária — corrigiu Ana, sem levantar a voz. — Hoje entreguei o pedido na Loja do Cidadão para cancelar esse registo. Motivo: fim da relação familiar. Amanhã avanço com o divórcio.
Beatriz deixou cair o bloco de massa seca que tinha na mão. Os pedacinhos espalharam-se pela mesa.
— Divórcio? Mas… e eu?
Ana soltou uma gargalhada curta. Não havia alegria nenhuma naquele som. Era apenas incredulidade perante tamanha falta de noção.
— A ti eu nunca te adotei. Portanto, junta as tuas coisas e põe-te a andar.
— Nós não vamos a lado nenhum! — João atirou a frigideira para cima da mesa com estrondo. — Esta casa também é minha! Fiz obras aqui!
— Colaste papel de parede no corredor? Então arranca-o e leva-o contigo.
Sem esperar resposta, Ana deu meia-volta e fechou-se no quarto.
Na quinta-feira, ao fim da tarde, Ana chegou do trabalho mais cedo do que era habitual. Ao abrir a porta, estranhou logo o silêncio. Nenhuma televisão aos berros, nenhum cheiro a comida gordurosa, nenhuma voz a queixar-se.
Entrou na sala.
No chão, junto ao sofá, estavam duas malas de viagem e três sacos pretos do lixo, cheios até ao limite.
Beatriz encontrava-se sentada no sofá, de casaco acolchoado e gorro, com os olhos inchados de tanto chorar.
João fumava na varanda.
Ana acendeu a luz.
— Muito bem. Afinal conseguiram arrumar tudo antes de eu chegar.
João entrou da varanda e soprou o fumo para dentro da sala de propósito, como se fosse o último gesto de desafio que lhe restava.
— Vamos embora. Mas vais devolver-nos o dinheiro. Da água, da luz, do condomínio. E das obras.
— Com certeza — respondeu Ana, assentindo. — Faço-te uma transferência assim que tu me transferires metade das prestações do crédito da casa pagas durante os três anos de casamento. Dá cerca de quinze mil euros. Queres que façamos as contas agora?
João apertou tanto os maxilares que os músculos lhe saltaram no rosto.
— Engasga-te com a tua casa. Sua víbora.
Pegou numa das malas com violência. Beatriz levantou-se também, agarrando a mochila.
Ana aproximou-se da entrada da sala e colocou-se no meio da passagem, barrando-lhes o caminho.
O olhar dela deteve-se em Beatriz. No casaco novo, ainda impecável. Nas botas de pele verdadeira. No saco de compras de marca conhecida que lhe pendia do ombro.
Depois, os olhos de Ana fixaram-se na manga do casaco acolchoado.
— Tira o casaco.
Beatriz ficou paralisada.
— O quê?
— O casaco. Tira-o. E abre a mochila.
João largou a mala no chão.
— Tu perdeste completamente o juízo? Estão dois graus lá fora!
Ana nem sequer olhou para ele. Continuou a encarar Beatriz.
— Esse casaco foi comprado em setembro, com o meu prémio. Era um presente para te ajudar “enquanto procuravas trabalho”. Trabalho não encontraste. O presente fica sem efeito.
— Ana, por favor… — Beatriz encostou-se à parede, encolhida. — Eu vou morrer de frio. Não tenho outro casaco de inverno. A minha mãe deitou tudo fora quando mudou de casa.
— Isso não é problema meu. Tira-o.
Beatriz virou-se para o irmão, à procura de socorro.
Mas João ficou calado. Limitou-se a baixar os olhos para o chão.
— João, diz-lhe alguma coisa! — soluçou ela.
Ana deu mais um passo.
— Ou o casaco fica aqui, ou chamo já a polícia e faço queixa por furto. Lembras-te do meu creme de setenta euros que desapareceu? Tenho os talões. Vamos à esquadra explicar se foi a Maria que o usou nas mãos ou se foste tu que o levaste?
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da cunhada. Com os dedos a tremer, Beatriz abriu lentamente o fecho.
O casaco caiu no chão. Por baixo, usava apenas uma camisola fina.
Ana empurrou o casaco com o pé para junto do sofá.
— A porta é por ali.
Saíram para o corredor. João arrastava os sacos e a mala, furioso e humilhado. Beatriz caminhava atrás dele só de camisola, abraçando-se a si própria para tentar conservar algum calor.
Ana ficou à porta, imóvel, a vê-los esperar pelo elevador.
Quando as portas se abriram, João entrou primeiro. Beatriz ainda se voltou. Tinha os lábios a tremer e os olhos cheios de ódio.
— Tu és um monstro — murmurou ela.
Ana não respondeu. Apenas fechou a porta com firmeza e passou a chave na fechadura. O estalido metálico soou-lhe quase como música.
Regressou à cozinha.
O apartamento estava mergulhado numa quietude perfeita, limpa, quase luminosa.
Não havia cheiro a suor alheio. Não havia cebola frita entranhada nas cortinas. Não havia passos estranhos, vozes irritantes, pedidos descarados, nem mãos mexendo no que não lhes pertencia.
Ana tirou do bolso uma pequena chave. Aproximou-se do grande frigorífico branco e abriu o cadeado que o mantinha fechado.
Lá dentro, tudo estava no seu lugar.
Ela respirou fundo.
E, pela primeira vez em muito tempo, sorriu.
