Nem perguntou como ele estava. Nem mandou um recado. Nem sequer disse aquela frase mínima, falsa mas possível: que ajudaria o filho de outra maneira. Nada. Apenas aquilo: que eu assinasse. Como se o próprio filho fosse uma cláusula incómoda de um acordo, daquelas que se riscam com uma caneta.
Foi então que se ouviram passos no corredor. Passos leves, descalços, a baterem no chão frio.
O João apareceu à entrada da cozinha. Trazia o pijama dos foguetões, o cabelo todo levantado da almofada e os olhos ainda meio presos ao sono. Ficou parado, a olhar para o telemóvel que Beatriz segurava, de onde há pouco saíra a voz do pai.
— Mãe, é o pai que está a ligar?
Beatriz virou-se. Calou-se de repente. Durante um instante, passou-lhe pelo rosto uma expressão estranha. Não era vergonha. Era antes surpresa, desconcerto. Ela não contava com uma criança ali. Tinha vindo falar com “a ex-mulher”, não com a mãe de um menino de sete anos.
Pousei a caneca, aproximei-me do João e baixei-me à altura dele.
— Não é o pai, meu amor. É uma senhora que veio tratar de um assunto. Vai para o teu quarto, sim? Eu já lá vou ter contigo.
Ele olhou para Beatriz. Depois para o telemóvel dela. Depois para mim. Acenou com a cabeça e voltou para trás. Ouvi o edredão a mexer, depois a voz baixinha dos desenhos animados a recomeçar.
Fechei a porta do quarto dele e fiquei uns segundos no corredor. Encostei a testa à ombreira, como se aquilo pudesse segurar-me no lugar. Inspirei fundo, soltei o ar devagar e regressei à cozinha. Por dentro, estava tudo apertado. O meu filho tinha acabado de ouvir o pai dizer que estava farto daquelas mulheres. Sete anos. Já percebia mais do que qualquer adulto queria admitir. Talvez não entendesse cada palavra, mas a intenção, essa, apanhava-a de certeza.
Beatriz colocou o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã virado para baixo. Carlos já tinha desligado; pelos vistos, considerava que dissera tudo o que tinha a dizer. Na cozinha instalou-se um silêncio pesado. Só o relógio da parede continuava a marcar os segundos, a torneira pingava de vez em quando no lava-loiça e, do andar de cima, chegava uma música abafada.
Fiquei junto à porta e pensei se Beatriz já teria compreendido que Carlos não era o aliado que imaginava. Ou se ainda se agarrava à ideia de que ele “andava dividido” entre nós.
Então, ela fez algo que eu não esperava. Mudou completamente de tom.
— Ouve — disse, agora com uma voz doce, quase compreensiva. — Eu vejo que isto para ti não deve ser fácil. Sozinha com uma criança, trabalho, contas… percebo. Vamos falar como mulheres adultas. Para quê tribunais, agentes de execução, nervos, papéis? Assinas, acabamos com isto e cada um segue a sua vida. Podemos ajudar de outra forma. Uma prenda para o menino, roupa, o que for preciso. Tudo de forma humana, sem processos pelo meio.
Fitei-a em silêncio. E, por um segundo — só um segundo — a ideia atravessou-me a cabeça: e se ela tivesse razão? Talvez fosse mais simples. Assinar. Parar de telefonar. Parar de calcular. Parar de esperar, no início de cada mês, por uma transferência que não viria. Apagar Carlos da minha vida financeira, como já o tinha apagado da minha vida pessoal.
Talvez fosse mesmo mais fácil.
Mas Beatriz não conseguiu ficar por ali. Precisava de acrescentar mais qualquer coisa.
— Porque, sabes… — inclinou-se sobre a mesa, e o perfume dela tornou-se quase sufocante — o Carlos também se pode despedir. No papel, claro. Passa a receber por fora e tu deixas de ver o que quer que seja. Nem um euro. Nós desenrascamo-nos. Agora tu, com uma criança…
Não terminou a frase. Também não era necessário.
Aquilo já não era um pedido. Era uma ameaça. Direta, concreta, feita dentro da minha cozinha, com uma gravação a decorrer.
Olhei-a nos olhos. Sem levantar a voz. Sem raiva. Sem medo. Afastei uma madeixa de cabelo para trás da orelha e respondi:
— Acabou de dizer, com isto a ser gravado, que o homem com quem vive está disposto a despedir-se para fugir ao pagamento da pensão do próprio filho. E que os dois têm consciência disso. Obrigada. Vai ser útil.
Beatriz ficou imóvel. A mão de unhas cor de vinho parou sobre a mesa como se alguém a tivesse desligado.
— Que gravação?…
Apontei com o queixo para a prateleira. O meu telemóvel estava ali, direito, com o ecrã aceso.
Ela virou a cabeça. Viu. E a cor fugiu-lhe do rosto.
Pousei então a mão sobre a pasta dos documentos.
Abri o dossiê sem pressa. Da mesma maneira que abro uma proposta no trabalho quando um fornecedor tenta enfiar valores inflacionados pelo meio. Com calma, página por página, tudo organizado no sítio certo.
— Aqui está — disse, virando a primeira folha para Beatriz. — O registo dos pagamentos. Vinte e quatro meses. A verde estão as transferências recebidas. A vermelho, os meses em falta. Está a ver? Treze linhas vermelhas. Treze meses sem qualquer pagamento.
Beatriz olhava para a folha. As unhas já não batiam na mesa; as mãos estavam quietas.
— Seguinte — continuei, passando à próxima página. — Cálculo da dívida. Pela ordem do tribunal, cento e cinquenta e quatro euros por mês, vinte e cinco por cento do salário declarado. Treze prestações em atraso. Descontam-se duas transferências pontuais: uma no aniversário e outra no Natal, cem euros cada. Total: mil oitocentos e dois euros.
Disse-o no mesmo tom. Sem dramatizar, sem saborear a surpresa dela. Números. Factos. Aquilo que eu sabia fazer: pôr tudo em ordem, sem deixar espaço para mal-entendidos.
Beatriz levantou os olhos para mim. Já não havia neles a segurança com que tinha entrado na minha casa. Havia outra coisa. Confusão. Talvez o princípio do medo.
— Quanto?… — perguntou, quase num sussurro. — Ele disse-me que eram duzentos euros. Trezentos, no máximo.
— Mil oitocentos e dois — repeti. — Euros. Está tudo discriminado. Cada data, cada valor, cada falta. Pode confirmar à vontade.
Beatriz pegou na folha. As mãos tremiam-lhe ligeiramente, e aquele tremor já não tinha nada a ver com a confiança com que, minutos antes, tentava conduzir a conversa.
