Beatriz percorreu as linhas com o olhar, uma a uma. Janeiro, fevereiro, março. Vermelho, vermelho, verde. Depois outra vez vermelho. E mais vermelho. Eu via, diante de mim, o momento em que a realidade começava a encaixar-se na cabeça dela. Não de uma vez, mas aos poucos, como uma porta pesada a abrir-se devagar.
Não eram duzentos euros. Eram mil oitocentos e dois. Não era “um pequeno atraso”. Era quase meio ano de dinheiro que devia ter chegado ao filho dele. Ela juntava quatro mil euros para a entrada de um crédito à habitação, mas mil oitocentos para uma criança eram, na versão que lhe tinham vendido, apenas uma formalidade.
Virei mais uma página do dossier.
— E isto aqui é a cópia do requerimento de execução entregue no tribunal. Tem o número de entrada e a data: dia seis. Há uma semana. O processo executivo já foi instaurado.
— O que é que isso quer dizer? — A voz de Beatriz mudou. Ficou mais fina, mais baixa. A mulher que, quarenta minutos antes, tinha atravessado o meu corredor a bater com os saltos no chão parecia ter desaparecido.
— Quer dizer que, dentro de duas ou três semanas, o agente de execução vai pedir informação sobre as contas dele. E vai penhorá-las até a dívida ficar paga. Todas. Incluindo a conta onde estão a juntar dinheiro para a entrada da casa.
Não senti prazer nenhum ao dizer aquilo. Não havia vitória em mim. Só uma espécie de silêncio cansado. Aquele silêncio de quem carregou um saco demasiado pesado durante muito tempo e, finalmente, o pousa no chão.
Beatriz levantou-se de repente. O banco raspou no pavimento com um som seco. Tirou o telemóvel da mala e ligou a Carlos. Um toque. Dois. Desta vez, ele não atendeu logo. Três. Quatro. Ao quinto, a chamada foi aceite.
— Mentiste-me — disparou ela, sem lhe dar espaço. Falava depressa, engolindo sílabas, com a voz a tremer. — Duzentos euros, não era? Duzentos? Ela tem aqui documentos. Mil oitocentos e dois euros! E há um processo em tribunal! Vão penhorar a conta! Que crédito habitação, Carlos? Que casa é que tu queres comprar se tens uma dívida destas ao teu filho?
Do outro lado, ouvi apenas um murmúrio indistinto. Palavras soltas, baixas, embrulhadas. Desculpas, provavelmente.
Beatriz nem esperou que ele terminasse. Desligou. Atirou o telemóvel para dentro da mala e tentou fechar o fecho. Os dedos não obedeciam; o cursor prendeu-se no tecido. Ela puxou com força, irritada, ergueu-se e caminhou até à porta.
Parou já no limiar. Voltou-se para mim.
— Porque é que me mostraste isto tudo?
Eu continuava encostada ao aro da porta da cozinha. O dossier permanecia aberto em cima da mesa, com as folhas espalhadas como provas que já não precisavam de gritar.
— Porque veio à minha casa — respondi. — Ao meu apartamento, onde o meu filho está a dormir. E veio exigir-me que abdicasse de dinheiro que, por lei, pertence a ele. Não a mim. A ele. A um menino de sete anos que só quer uma mochila com um foguetão. Eu não lhe devo nada. E não vou assinar coisa nenhuma.
Beatriz agarrou no puxador. Abriu a porta e saiu. A porta bateu atrás dela, e a casa mergulhou numa quietude quase física.
Fiquei no corredor sem me mexer. O perfume dela ainda pairava no ar, doce e intruso. Da cozinha vinha o cheiro do trigo-sarraceno já frio. Do quarto de João não chegava som nenhum. Tinha adormecido.
Fui até à prateleira e peguei no telemóvel. No ecrã, a gravação marcava quarenta e sete minutos e catorze segundos. Carreguei em “parar”. Guardei o ficheiro. Depois enviei-o para o meu e-mail, por precaução. Uma segunda cópia nunca fez mal a ninguém.
Só então me sentei no banco onde Beatriz estivera sentada. Ainda conservava algum calor. Sobre a mesa, a folha que ela trouxera permanecia ali: a tal declaração de renúncia. Peguei-lhe com dois dedos, dobrei-a com cuidado e guardei-a dentro do dossier. Aquilo também podia vir a ser útil.
Nessa noite, perto das dez, o telemóvel apitou. Era uma notificação bancária: transferência recebida, quatrocentos e cinquenta euros. De Carlos. Sem mensagem. Sem explicação. Pela primeira vez em seis meses, tinha pago alguma coisa por iniciativa própria, sem chamadas, sem insistências, sem eu ter de pedir.
Um mês mais tarde, o agente de execução escreveu-me por mensagem. A conta de Carlos tinha sido penhorada, e o valor de mil trezentos e cinquenta e dois euros fora retirado para liquidar a dívida. Saldo em falta: zero. A pensão em atraso estava finalmente regularizada.
Beatriz desapareceu. Não soube pormenores, e também não procurei saber. Imagino que, quando fez as contas a sério, a ideia de comprar casa com um homem que tinha as contas penhoradas tenha deixado de lhe parecer tão promissora.
Depois da penhora, Carlos deixou de telefonar a João. Antes, ainda ligava de duas em duas ou de três em três semanas, chamadas curtas, quase protocolares, apenas para poder dizer que o fazia. Depois, nada. Silêncio absoluto.
João perguntou uma vez:
— Mãe, o pai vai ligar?
Olhei para ele e respondi a única coisa honesta que consegui:
— Não sei, meu amor. Mas eu estou aqui.
Ele assentiu com a cabeça e voltou ao seu conjunto de peças de construção. Aos sete anos, as crianças percebem muito mais do que os adultos gostariam.
Em agosto comprei-lhe a mochila. Azul, com um foguetão. Aquela mesma. Fiquei parada na loja durante alguns segundos, a segurá-la nas mãos, e pensei que aquele dinheiro não era esmola. Não era favor. Não era generosidade de ninguém. Era o que o meu filho tinha direito a receber simplesmente por existir. E, pela primeira vez em dois anos, eu não tive de me humilhar para o conseguir.
Nessa noite, parei no corredor e olhei para a porta de entrada. Estava fechada. Era só uma porta comum, branca, com uma fechadura simples. Um mês antes, eu tinha-a aberto a uma estranha que vinha tentar levar aquilo que pertencia ao meu filho. Agora, era apenas a porta da nossa casa. O lugar onde eu e João estávamos seguros. Onde cheirava a comida simples, e não a perfume alheio. Onde o telemóvel continuava na prateleira, mas já sem estar a gravar.
Alguma vez lhe pediram que abdicasse dos seus direitos para que outra pessoa pudesse viver mais confortavelmente?
