— Ainda agora chegámos! — protestou Maria, indignada.
— Eu disse: para casa! — João levantou-se de repente, com o rosto fechado. — Saiam da minha casa. Agora!
Ana passou três dias em casa da mãe. Durante esse tempo, João telefonou-lhe vezes sem conta, enviou mensagens, apareceu até à porta de Isabel, mas a sogra não lhe abriu.
— A Ana não te quer ver — disse ela, do outro lado da porta. — Vai-te embora, João.
Ao quarto dia, Ana decidiu voltar ao apartamento. Não ia para conversar, nem para recomeçar coisa nenhuma. Ia apenas buscar as suas roupas e o que ainda lhe pertencia. Pensou que João estivesse no trabalho, mas encontrou-o sentado à mesa da cozinha, como se a esperasse.
— Ana! — exclamou ele, levantando-se num salto. — Voltaste!
— Vim buscar as minhas coisas — respondeu ela, sem calor na voz.
Seguiu diretamente para o quarto e começou a dobrar roupa para dentro de uma mala. João ficou parado à entrada, encostado ao aro da porta, a observá-la com uma expressão perdida.
— Ana, precisamos de falar…
— Falar sobre quê? — Ela nem sequer parou. — Sobre a forma como me humilhaste à frente da tua família? Ou sobre como gastas o dinheiro sem pensar e depois esperas que eu faça aparecer comida na mesa por milagre?
— Eu percebi. A sério. Percebi tudo. Errei.
Ana interrompeu o gesto e olhou-o de frente.
— “Errei”? João, tu não erras de vez em quando. Tu vives a repetir os mesmos erros. Isto não foi um acidente. É um padrão.
— Eu vou mudar!
— Não vais — disse ela, abanando a cabeça. — Disseste isso quando compraste uma televisão em vez de um frigorífico. Disseste-o quando bebeste o prémio todo com os amigos. Disseste-o quando…
— Chega! — João bateu com o punho no aro da porta. — Até quando vais continuar a atirar-me isso à cara?
— Enquanto esse passado continuar a aparecer no presente, João. E sabes o pior? Ele vai continuar. Porque foi assim a nossa vida. Ou melhor, aquilo que restou dela.
Ana fechou o fecho da mala e levou-a até ao corredor. Já perto da porta, deteve-se por instantes.
— A propósito, o teu irmão Manuel ligou-me ontem. Pediu-me desculpa. Disse que eu tinha razão. E contou-me uma coisa curiosa.
João ficou tenso.
— O quê?
— Que há um mês lhe pediste cem euros emprestados. Gastaste-os em tralhas de jogos. A mim disseste-me que o ordenado estava atrasado.
O rosto de João perdeu a cor.
— Isso… não foi bem assim…
— Agora já não interessa. Vive como quiseres, João. Só não contes comigo para isso.
Ana saiu e fechou a porta atrás de si, sem bater, sem dramatismos, apenas com uma calma que doía mais do que qualquer grito.
Passaram-se dois meses. Ana alugou um pequeno T0 perto do trabalho. O divórcio seguia os seus trâmites; João não levantou obstáculos, como se, finalmente, tivesse compreendido que já não havia caminho de volta.
Numa noite, porém, apareceu-lhe uma visita inesperada. Era Maria.
— Posso entrar? — perguntou, parada à soleira.
Ana afastou-se para a deixar passar.
— Queres chá? — perguntou, por educação.
— Quero — respondeu Maria, sentando-se na pequena cozinha. — Ana, vim pedir-te perdão.
Ana ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Perdão pelo quê?
— Por tudo. Por me ter metido onde não era chamada. Por ter virado o João contra ti. Por me ter comportado como uma pessoa miserável.
— O que se passou contigo, Maria? — perguntou Ana, observando-a com atenção. — De onde vem esta sinceridade toda?
Maria baixou os olhos para as mãos.
— O Pedro descobriu o Rui. Não sei como, mas descobriu. Pediu o divórcio. E sabes o que me disse?
— O quê?
— Que eu estava a receber exatamente aquilo que merecia. Que ninguém destrói a família dos outros e constrói a própria felicidade em cima disso.
Ana serviu o chá em silêncio.
— E há mais uma coisa — continuou Maria, com a voz mais baixa. — O João agora vive com uma miúda qualquer. Dez anos mais nova. Ela está a deixá-lo sem um tostão. Ele até já vendeu o carro para lhe comprar um casaco de pele.
— Não tenho pena — disse Ana, simplesmente.
— Fazes bem. Foi ele que escolheu esse caminho. Tal como eu escolhi o meu.
Durante alguns minutos, ficaram caladas, cada uma presa aos seus pensamentos. Depois, Maria levantou-se devagar.
— Obrigada por me teres ouvido. E, mais uma vez: desculpa.
