— Está tudo bem — respondeu Ana, acompanhando-a até à porta.
Passado cerca de um mês, Ana cruzou-se com Manuel no supermercado. Quase não o reconheceu à primeira vista: estava mais magro, com o rosto pálido e um ar abatido.
— Ana! — exclamou ele, visivelmente surpreendido. — Como tens passado?
— Vou andando. E tu?
Manuel fez um gesto vago com a mão, como quem não sabe por onde começar.
— A Inês foi-se embora. Cansou-se das minhas mentiras e da minha mesquinhez.
Ana não disse nada.
Ele baixou os olhos por instantes, depois continuou:
— Sabes… naquele dia… fomos uns brutos. Eu e a Maria. Aparecemos em tua casa daquela maneira, como se tivéssemos algum direito. Portámo-nos como uns porcos.
— Aconteceu — respondeu Ana, sem dureza, mas também sem calor.
— Tens visto o João?
— Não. Nem quero.
— Fazes bem. Está completamente perdido. Ficou sem trabalho, começou a beber. A rapariga, mal percebeu que o dinheiro tinha acabado, desapareceu. Agora anda encostado à mãe.
Ana limitou-se a acenar com a cabeça. Não sentiu pena. Nem raiva. Apenas uma distância tranquila, como se aquilo já pertencesse à vida de outra pessoa.
— Tenho de ir — disse, virando-se para sair.
— Ana! — chamou Manuel atrás dela.
Ela parou.
— Fizeste bem em deixá-lo. A sério. Fizeste mesmo bem.
A vida de Ana, pouco a pouco, foi encontrando o seu lugar. No trabalho, deram-lhe novas responsabilidades e, algum tempo depois, uma promoção. Inscreveu-se finalmente num curso de francês, começou a ir ao teatro, voltou a aceitar convites para jantar com amigas. Eram pequenas coisas, mas durante anos tinha-as adiado por causa de João, sempre à espera do momento certo, sempre a pôr-se em segundo plano.
Numa noite, ao regressar a casa, viu uma silhueta conhecida junto à entrada do prédio. Parou antes de se aproximar. Era João. Estava curvado, emagrecido, com a barba por fazer e a roupa amarrotada, como se tivesse dormido dentro dela.
Assim que a viu, precipitou-se na sua direção.
— Ana… — a voz dele saiu rouca. — Ana, perdoa-me!
— Vai-te embora, João.
— Eu percebi tudo! Fui um idiota, fui cego! Perdoa-me, por favor!
— João, é tarde. Vai-te embora.
— Mas eu amo-te!
Ana ficou imóvel por um momento. Depois olhou-o de alto a baixo, sem pressa.
— Não, João. Tu amas-te a ti próprio. E agora procuras alguém que te trate, que te sirva, que te resolva a vida. Eu não vou ser essa pessoa.
— Dá-me só uma oportunidade!
— Dei-te dezenas. Talvez centenas. Desperdiçaste-as todas. Desaparece.
João tentou agarrar-lhe o braço, mas Ana afastou-se de imediato.
— Nem penses em tocar-me. Se insistires, chamo a polícia.
— És cruel! — gritou ele. — Não tens coração! Perdi tudo por tua causa!
— Não foi por minha causa — respondeu Ana, com uma calma que o desarmou. — Foi por tua causa. Pela tua ganância, pelo teu egoísmo, pela forma como desprezavas os outros. Recebeste exatamente aquilo que foste construindo.
Sem esperar resposta, passou por ele e entrou no prédio. João ficou lá fora, sozinho, enquanto as primeiras gotas de chuva começavam a cair.
Um ano depois, Ana conheceu Miguel, um colega do departamento ao lado. Era atento sem ser invasivo, tratava-a com respeito e nunca lhe exigia o impossível. Ao lado dele, Ana não precisava de se justificar por existir.
Quando se casaram, até Maria apareceu na cerimónia. Abraçou Ana com sinceridade e ficou feliz por ela, sem sombra de inveja. Manuel enviou um postal da cidade para onde se mudara depois do divórcio, com votos simples e honestos de felicidade.
Quanto a João, Ana nunca mais soube nada de concreto. Diziam que tinha ido trabalhar para longe, depois que regressara, depois que partira outra vez. Em lado nenhum se demorava muito. A arrogância, a avareza e a falta de respeito pelas pessoas acabavam sempre por vir ao de cima.
Às vezes, sentada na sala acolhedora da sua nova casa, Ana lembrava-se daquele dia em que João lhe ordenara que alimentasse a família dele com armários vazios. Tinha sido o ponto de viragem da sua vida. O dia em que recusara a humilhação. O dia em que deixara de aceitar o desprezo. O dia em que, finalmente, se escolhera a si própria.
— Em que estás a pensar? — perguntou Miguel, sentando-se ao lado dela e passando-lhe um braço pelos ombros.
Ana sorriu.
— Nas voltas que a vida dá.
— Mandamos vir uma pizza? Ou fazemos qualquer coisa?
— Fazemos. Mas juntos.
— Juntos, então — disse ele, beijando-lhe o alto da cabeça.
Ana encostou-se a ele. Pela primeira vez em muitos anos, sentia que a vida seguia na direção certa. E, algures muito longe, num canto escuro do passado, ficara um homem que nunca compreendera uma verdade simples: amor e respeito não se arrancam à força. Merecem-se.
