— O seu filho — respondeu o meu pai, voltando por instantes os olhos para Tiago — acabou de se casar com a minha filha. Na minha casa. Num restaurante que eu paguei e construí com o meu trabalho. E a senhora achou aceitável humilhá-la diante de toda a gente.
— Tiago! — Manuela virou-se para ele, quase a exigir obediência. — Diz alguma coisa!
Tiago permanecia sentado, imóvel, com o olhar enterrado no prato. Tinha as mãos apertadas uma contra a outra sobre os joelhos.
— Tiago! — insistiu ela, mais alto.
Ele não respondeu.
Então o meu pai encarou-o.
— Tiago — disse, num tom baixo mas firme —, estás do lado da tua mãe ou do lado da tua mulher?
Só nessa altura ele levantou a cabeça. Olhou para o meu pai, depois para Manuela, depois para mim.
— Eu… eu não sei o que dizer…
— Diz-lhe que se vá embora — respondeu o meu pai.
Tiago engoliu em seco.
— Mas ela é a minha mãe…
— E a Inês é a tua mulher. Há menos de uma hora prometeste amá-la, respeitá-la e protegê-la.
Ele abriu a boca, como se fosse falar, mas nenhuma palavra saiu.
O meu pai voltou-se novamente para Manuela.
— Senhora Silva, vai sair do restaurante. Agora.
— O senhor não me pode pôr na rua! — gritou ela.
— Posso, sim. Sou o proprietário. Tenho o direito de retirar daqui qualquer pessoa que perturbe a ordem e desrespeite os outros. As câmaras estão a gravar. Cem pessoas ouviram o que disse. Pode sair pelo seu pé, ou eu chamo a segurança.
Manuela ficou primeiro vermelha, depois branca como cal. Agarrou na mala com um gesto brusco.
— Tiago, vamos embora!
— Não — cortou o meu pai. — O Tiago é meu genro. Se quiser ficar, fica. A senhora é que já não é bem-vinda.
— Tiago! — berrou ela. — Vens comigo ou não?
Ele olhou para mim. Depois para a mãe. Depois para o meu pai.
— Eu… eu tenho de ir com ela…
— Não tens — disse o meu pai.
— Mas ela está sozinha…
— É uma mulher adulta — respondeu ele. — Saberá perfeitamente voltar para casa.
Tiago levantou-se devagar. Caminhou até junto da mãe.
— Desculpa, Inês — murmurou, sem conseguir olhar-me de frente. — Tenho de garantir que ela fica bem.
E saiu.
Com a mãe.
Para fora do restaurante.
Da própria festa de casamento.
Durante alguns segundos, ninguém respirou. Os convidados continuaram sentados, presos a um silêncio pesado, sem saberem se deviam levantar-se, falar, fingir que nada tinha acontecido.
O meu pai aproximou-se de mim e segurou-me na mão.
— Inês, minha querida… consegues levantar-te?
Levantei-me, embora as pernas me tremessem como se já não fossem minhas.
Ele conduziu-me até ao microfone. Pegou nele com cuidado, respirou fundo e falou para a sala.
— Meus amigos, peço desculpa pelo que acabaram de presenciar. O meu genro decidiu abandonar o próprio casamento. Escolheu sair daqui com a mãe. Essa decisão pertence-lhe.
Calou-se por um instante. Tirou um lenço do bolso e passou-o pelos olhos.
— Mas a minha filha continua aqui. E nós vamos continuar a celebrar. Porque ela merece. Merece esta noite, merece alegria, merece estar rodeada por pessoas que a amam e que a respeitam.
Alguém começou a bater palmas. Depois outra pessoa se juntou. E outra. Em poucos segundos, a sala inteira aplaudia.
Eu estava junto ao microfone, de vestido de noiva, sem noivo ao lado.
O meu pai abraçou-me.
— Queres ir para casa, querida?
Abanei a cabeça.
— Não. Ficamos. Vamos celebrar.
— Tens a certeza?
— Tenho. Porque disseste a verdade. Eu mereço isto.
A festa continuou. Sem noivo. Sem sogra.
Dancei com o meu pai. Depois com um primo. Depois com uma prima. Comi bolo, ri-me das piadas do meu tio e bebi champanhe, como se o coração não me estivesse a rachar por dentro.
E, ainda assim, a cada minuto, esperava que Tiago voltasse.
Não voltou.
Perto da meia-noite, saí para apanhar ar. Sentei-me no banco em frente ao restaurante. A lua iluminava a rua vazia e tudo parecia demasiado calmo.
O meu pai apareceu pouco depois e sentou-se ao meu lado.
— Como estás?
— Não sei, pai.
— Ele ligou?
— Não.
O meu pai assentiu lentamente. Ficou calado durante algum tempo. Depois disse:
— Inês, posso dizer-te uma coisa?
— Podes.
— Hoje, o Tiago fez uma escolha. Não foi a mãe que escolheu por ele.
