— Foi ele. Viu-te ser humilhada. Ouviu cada palavra que ela disse. E, mesmo assim, ficou do lado dela.
— Mas…
— Não há “mas”, querida. Ele escolheu-a. No dia do vosso casamento. À frente de cem pessoas. Isso não foi um deslize. Foi uma decisão.
As lágrimas começaram a cair-me sem controlo.
— E agora, pai? O que é que eu faço?
— O que é que tu queres fazer?
— Não faço ideia.
Ele baixou a voz.
— O amor, Inês, por si só, não chega. Tem de haver respeito. Tem de haver coragem. Eu sei que o Tiago te ama. Mas hoje não teve coragem para te defender. E, quando isso falta, o amor torna-se pequeno demais.
Às duas da manhã, recebi uma mensagem dele:
“ Inês, desculpa. A minha mãe teve uma crise de pânico. Tive de a levar para casa. Amanhã volto. Temos de conversar.”
Fiquei a olhar para o ecrã durante alguns segundos. Depois respondi:
“Não, Tiago. Hoje tu escolheste. Escolheste a tua mãe. Agora vive com essa escolha.”
E bloqueei o número.
Três meses passaram.
O divórcio resolveu-se depressa. Tiago nem apareceu na audiência. Mandou o advogado em seu lugar. O homem disse que o cliente estava arrependido, que queria uma oportunidade para reparar tudo.
A juíza olhou para mim e perguntou:
— A senhora quer dar-lhe essa oportunidade?
Respondi apenas:
— Não.
E o divórcio foi decretado.
Hoje estou sentada numa mesa do café de “A Gaivota Dourada”, o restaurante do meu pai. Depois daquele casamento, ele mudou-lhe o nome. Disse que era preciso marcar um recomeço.
Tenho um cappuccino à minha frente e um livro aberto nas mãos. Lá fora, passam casais de braço dado. Alguns riem, outros caminham colados um ao outro para fugir ao frio. Sorrio ao vê-los.
Um dia, voltarei a ser eu. Com outra pessoa. Com alguém que saiba levantar-se por mim.
O telemóvel vibra sobre a mesa. É uma mensagem de Tiago, enviada de um número desconhecido, porque o dele continuava bloqueado:
“Inês, por favor. Perdoa-me. Eu errei. Afastei-me da minha mãe. Já não falamos. Dá-me só mais uma oportunidade.”
Leio até ao fim.
Depois apago.
Porque o meu pai tinha razão. Aquilo que aconteceu no casamento não foi um erro momentâneo. Foi uma escolha.
E eu mereço alguém que me escolha a mim. Sempre. Logo da primeira vez.
Não alguém que escolha a mãe e só depois se arrependa.
O meu pai aproxima-se e senta-se diante de mim.
— Como estás, Inês?
— Estou bem, pai. Mesmo bem.
— Ele escreveu-te?
— Escreveu. Apaguei.
O rosto dele ilumina-se num sorriso discreto.
— Tenho muito orgulho em ti.
— Porquê?
— Porque já sabes o que mereces. E porque não deixas que ninguém te convença a aceitar menos.
Seguro-lhe na mão.
— Obrigada, pai. Por aquele dia. Pelo que fizeste por mim.
— Não fiz nada de especial.
— Fizeste, sim. Expulsaste o meu noivo do nosso casamento. No teu próprio restaurante. À frente de cem convidados.
Ele abanou a cabeça, corrigindo-me:
— Expulsei alguém que não te respeitou. O facto de ser o teu noivo foi apenas um pormenor.
Começo a rir. E, ao mesmo tempo, volto a chorar.
— O que vai ser de mim agora?
— Vais viver. Vais reconstruir-te. E um dia vais encontrar alguém que se levante sem precisar que lhe peçam. Alguém que diga: “Chega.” Alguém que te escolha sem hesitar.
— E se eu não encontrar?
— Vais encontrar. Porque tens valor, Inês. E o homem certo vai reconhecê-lo.
Lá fora, começam a cair os primeiros flocos de neve da estação.
Fico a olhar pela janela. Do outro lado da rua, um homem envolve a mulher no casaco para a proteger do frio. Ela ri-se, encostada a ele.
É isso que eu quero.
É isso que eu mereço.
Não um homem que abandone o casamento para seguir a mãe.
Mas um homem capaz de afastar qualquer pessoa, até a própria mãe, se for preciso, para ficar do meu lado.
O meu pai fez isso por mim. Mostrou-me como é ser protegida de verdade.
E agora sei o que devo procurar.
E também sei o que nunca mais vou aceitar.
