O meu pai nunca foi nenhum bêbedo. Morreu de cancro no pulmão, depois de anos a trabalhar num sítio insalubre, quando eu tinha doze anos. E não admito que ninguém suje a memória dele.
Catarina virou-se então para o marido. Bruno permanecia imóvel, de cabeça baixa, com o ar encolhido de um rapaz apanhado em falta.
— E tu? — perguntou-lhe ela. — Não tens nada a dizer? A tua mãe acabou de insultar os meus pais. A minha família. A mim. Vais ficar calado? Estás do lado dela?
Bruno ergueu finalmente os olhos. Havia neles uma tristeza tão funda, tão perdida, que por um instante Catarina quase sentiu pena dele. Mas foi só por um instante.
— Catarina, tu conheces a minha mãe… — murmurou ele, sem firmeza. — Ela não disse aquilo por mal. Exaltou-se, pronto. Já tem idade, às vezes dispara sem pensar. Também não precisas de levar tudo tão a peito. Disse uma parvoíce, acontece a qualquer um.
— Disse uma parvoíce — repetiu Catarina, devagar. — Ela passa anos a tentar reduzir-me a nada, a apagar-me como pessoa, e tu chamas a isso “uma parvoíce”. Ela combina nas minhas costas o que fazer ao dinheiro que eu ganho, e tu dizes que “acontece a qualquer um”. Ela cospe-me na alma, a mim e aos meus pais, e tu pedes-me que não me ofenda.
— E querias o quê? Que eu andasse à pancada com ela?! — Bruno perdeu o controlo e levantou a voz. Naquele grito havia tanta fraqueza, tanta incapacidade, que Catarina percebeu tudo de uma vez. — Que a pusesse na rua?! É a minha mãe, percebes? A minha mãe!
— E eu sou a tua mulher — respondeu Catarina. — Sou a tua família há doze anos. Mas, pelos vistos, isso nunca te entrou na cabeça.
Sem esperar por mais nada, saiu da cozinha. Atravessou o corredor, entrou no quarto e puxou de uma prateleira alta do roupeiro uma mala pequena de viagem. Começou a meter roupa lá dentro. Tinha as mãos tão trémulas que as camisolas lhe escorregavam entre os dedos.
Pouco depois, Bruno apareceu à porta.
— O que é que estás a fazer? — perguntou, assustado.
— A arrumar as minhas coisas. Por agora vou ficar em casa da Inês.
— Catarina, não sejas absurda! Vais embora por causa de uma discussão normal? Estás a fazer-te valer, é isso? A minha mãe já deve estar arrependida, tenho a certeza!
Do corredor, ouviu-se a voz de Ana, alta e carregada de veneno:
— Deixa-a ir! Que vá com Deus e não volte! Noivas arranjam-se aos montes, não é esta que nos faz falta! Olha-me a princesa ofendida!
Catarina soltou um riso curto e atirou a bolsa dos cosméticos para dentro da mala.
— Ouviste? — perguntou ao marido. — A tua mãe não está arrependida. Está-se a marimbar. E tu, ao que parece, também. O que te importa é que tudo continue como antes. Que ela entre aqui quando lhe apetecer, limpe os pés em cima de mim, e tu faças de conta que não vês. Que eu fique calada, sorria e continue a pagar.
— Falamos disso amanhã, vá! — Bruno tentou agarrar a mala. — Estás de cabeça quente. Vais dizer coisas de que depois te arrependes!
Catarina fechou o fecho com um puxão brusco, quase lhe apanhando os dedos.
— Doze anos — disse, encarando-o sem desviar o olhar. — Durante doze anos, eu esperei alguma coisa de ti. E tu, durante esse tempo todo, ficaste sentado, à espera que eu e a tua mãe resolvêssemos o assunto sozinhas. Tu não és meu marido. És um hóspede. Uma pessoa que vive debaixo do mesmo teto que eu e se serve do meu ordenado.
— Isso não é verdade! — gritou ele. — Eu amo-te! Tu sabes que sim!
— Amas-me? — Catarina vestiu o casaco, sem pressa. — Então explica-me por que razão nunca disseste à tua mãe: “Chega, esta é a minha mulher, e eu devo-lhe respeito”? Porque nunca lhe contaste que sou eu que pago a prestação da casa enquanto tu guardas o teu ordenado? Porque nunca disseste que sou eu que a levo às consultas, que lhe compro medicamentos caros quando a pensão não chega? Porque deixaste que ela me chamasse “vendedeira” e “alpinista social” vezes sem conta, enquanto tu, logo a seguir, me pedias dinheiro para a gasolina?
Bruno ficou mudo. Abria e fechava a boca, como um peixe atirado para fora de água.
— Pois — concluiu Catarina. — Não tens resposta.
Pegou na mala e encaminhou-se para a saída. Já junto à porta, voltou-se para a sogra. Ana estava parada no limiar da cozinha, de braços cruzados sobre o peito. Trazia no rosto uma expressão triunfante, como se tivesse acabado de ganhar uma batalha.
— Então? — disse ela, com um sorriso torto. — Vais mesmo embora? Boa viagem. Mas fica já a saber: este apartamento é nosso. Se voltares, voltas para viver pelas nossas regras.
Catarina fitou-a durante alguns segundos, com um olhar longo, frio, quase analítico. Depois voltou-se para Bruno.
— Sabes uma coisa, Bruno? — disse, calma, num tom quase banal. — Eu vou mesmo embora. Mas não é por uns dias. Vou pedir o divórcio. E não se preocupem, não vou reclamar nada deste apartamento. Felizmente, tenho o meu. Aquele que comprei no ano passado, enquanto vocês aqui discutiam a melhor maneira de me espremer.
O rosto de Ana desfez-se. A possibilidade, era evidente, nunca lhe tinha passado pela cabeça.
— Que apartamento? — perguntou ela, seca.
