— Como disseste?
— O casaco, Inês. Despe-o. Pertence-me. Ainda não recebeste coisa nenhuma.
— Com todo o prazer! — Inês arrancou o casaco de peles dos ombros com um gesto teatral e atirou-o para cima da cama, como se estivesse a fazer um favor. Logo a seguir, aproximou-se das gavetas onde Ana guardava as joias e começou a remexer sem a menor cerimónia. — Ora, ora… e isto aqui?
Entre os dedos, ergueu uma caixinha pequena, forrada a veludo escuro. Lá dentro repousava um antigo pendente de ouro, salpicado por minúsculos diamantes. Era a única joia que a mãe de Ana, já falecida, lhe deixara. Inês abriu a caixa devagar, e o brilho que lhe atravessou os olhos não tinha nada de admiração inocente.
— Que coisa linda… São pedras verdadeiras, não são? Olha, sabes que mais? Vou ficar com isto. Vá lá, não faças essa cara. Vais armar-te em avarenta por causa de um fio? Agora somos da mesma família. O Rui disse que tu ias compreender.
A voz de Ana baixou um tom, tornando-se fria e firme:
— Volta a pôr isso no sítio.
— Ai, por favor — resmungou Inês, já a prender a corrente ao pescoço. — Dizes ao Rui que perdeste. Ou então que eu pedi. Ele deixa, tu conheces bem o meu irmão. Ele gosta mais de mim do que de qualquer pessoa.
Ana avançou um passo. Por uma fração de segundo, Inês pensou que ia levar uma bofetada e recuou instintivamente. Mas Ana limitou-se a estender a mão, agarrou o pendente e arrancou-lho do pescoço. A corrente, fina, partiu-se com um estalido metálico. Inês soltou um grito agudo.
— Estás maluca?! Que raio estás a fazer? Vou contar ao Rui como me trataste!
— Conta — respondeu Ana, fechando o punho em volta da joia. — E agora junta as tuas coisas e sai daqui. Se te esqueceste, eu recordo-te: já tens um apartamento teu, pago com dinheiro que saiu do meu bolso. É para lá que deves ir.
— Pois vou mesmo! — guinchou Inês, apanhando o casaco da cama. — E levo a roupa, sim. Tu própria disseste que eu podia escolher o que quisesse!
— Leva. Usa enquanto podes. Antes que os agentes de execução façam o inventário.
Inês já ia no corredor quando ouviu aquela última frase. Parou por um instante, mas não lhe deu importância. Limitou-se a bufar, como se Ana tivesse dito mais uma das suas “parvoíces”, e bateu a porta com tanta força que um pouco de reboco se soltou do aro. Ana ficou imóvel no quarto, olhando para a corrente partida na palma da mão. Depois colocou o pendente de novo na caixa, guardou-a cuidadosamente no cofre e regressou ao computador portátil.
O seu rosto continuava indecifrável.
Esperava pelas dez horas.
Nessa mesma manhã, no quarto piso de um centro empresarial, a sede da construtora RuiConstruções funcionava em pleno. Os comerciais telefonavam a clientes, o encarregado da obra explicava um atraso no fornecimento de materiais e a secretária distribuía cafés pelas mesas. No gabinete maior, com janelas rasgadas sobre a cidade e paredes revestidas a couro, Rui Ferreira estava sentado na sua cadeira de executivo e sentia-se um vencedor.
A noite anterior, na sua opinião, correra na perfeição. A irmã ficara radiante, a mulher fora posta no devido lugar e, para sua surpresa agradável, não houvera gritaria nem cenas dramáticas. Ana engolira a humilhação, como sempre fizera. Rui conhecia-lhe o padrão: passaria um dia de cara fechada, a cozinhar o ressentimento em silêncio, e depois voltaria a ligar a sua máquina de contabilidade, a resolver problemas, a encontrar dinheiro, a salvar contratos. Era assim desde o início. E assim continuaria.
Recostou-se, satisfeito, e ligou a Inês.
— Então, mana, gostaste da prenda?
Do outro lado, a resposta veio em forma de explosão:
— Rui, por pouco não arranquei os olhos à tua idiota! Atirou-se a mim por causa de uma porcaria de uma joia. Tens de falar com ela e pô-la no sítio!
— Acalma-te, Inês. Eu trato disso. Passo aí logo à noite. Ela arrefece. A Ana arrefece sempre.
Desligou e espreguiçou-se, com uma sensação confortável de controlo. Às dez em ponto, tinha marcada uma reunião com o advogado por causa de um novo concurso público. Contudo, às nove e cinquenta e oito, bateram à porta do gabinete de uma maneira que não se confundia com a dos empregados nem com a de qualquer estafeta. A porta abriu-se antes que ele desse autorização.
Entraram seis homens à civil. O primeiro, alto, grisalho, com um sobretudo cinzento, mostrou uma identificação sem dizer palavra. Polícia Judiciária, Unidade de Combate à Corrupção e ao Crime Económico. Atrás dele surgiam dois homens mais robustos, com coletes táticos e expressão fechada. Vinham acompanhados por elementos da Autoridade Tributária.
— Rui Ferreira? — perguntou o grisalho, embora fosse evidente que já sabia a resposta.
— Sou eu. Que se passa? — Rui tentou parecer indignado e surpreendido, mas sentiu no peito uma coisa viscosa e gelada a começar a mexer.
— A sua empresa está a ser alvo de uma investigação por suspeita de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Temos mandado de busca e apreensão de documentação. Todos os funcionários devem permanecer nos seus lugares. Telemóveis desligados, por favor.
— Fraude fiscal?! — Rui levantou-se de repente, empurrando a cadeira para trás. — Isto é algum disparate? Vou ligar já ao meu advogado!
— Ligará quando terminarmos — respondeu o homem, imperturbável. — Começaremos pelo cofre. Se fizer o favor de o abrir voluntariamente, poupa-nos trabalho. Caso contrário, será aberto por meios técnicos.
Rui ficou de pé, incapaz de impedir que os agentes desmantelassem metodicamente o seu pequeno reino. Abriram gavetas, retiraram pastas, desligaram a estrutura dos servidores, apreenderam discos rígidos, contratos, dossiês de fornecedores e envelopes guardados onde não deviam estar. Na receção, a secretária chorava baixinho. Os gestores comerciais olhavam uns para os outros sem se atreverem a falar.
E Rui, entretanto, pensava a uma velocidade febril.
Quem o entregara?
Um concorrente? Um sócio descontente? Algum empreiteiro deixado para trás? A hipótese de Ana passou-lhe pela cabeça, mas foi imediatamente afastada. Não, ela não teria coragem. Na cabeça dele, Ana era uma ratazana assustada, eficiente com números, sim, mas incapaz de levantar a voz, quanto mais de o denunciar.
O homem grisalho folheava os documentos retirados do cofre quando perguntou:
— Onde está a sua contabilista principal?
Rui engoliu em seco.
— Ela… adoeceu.
— Curioso — disse o agente, sem levantar muito os olhos. — Porque recebemos precisamente dela uma participação bastante detalhada. Esquemas, datas, transferências, nomes de empresas, mapas paralelos. Tudo acompanhado por elementos de prova. O senhor sabia que a sua esposa mantinha uma contabilidade à parte?
Nesse instante, alguma coisa se partiu dentro da cabeça de Rui. Abriu a boca, pronto para negar, insultar, explicar, qualquer coisa, mas nenhum som lhe saiu. O agente apenas assentiu, como se tivesse confirmado o que precisava, e prosseguiu com a busca.
A operação demorou quatro horas. Quando finalmente os homens saíram, levando três caixas cheias de documentos e dois servidores, Rui deixou-se cair no chão, mesmo no meio do gabinete devastado. Ficou ali sentado, de costas contra a secretária, a olhar para a parede como se ela lhe pudesse devolver uma solução.
O telefone vibrava sem parar. Chamadas atrás de chamadas.
Ele sabia que era Inês.
E, pela primeira vez em muitos anos, não fazia ideia do que lhe dizer.
Só uma hora depois conseguiu pegar no telemóvel e ligar-lhe. A voz dele vinha rouca, atravessada por uma mistura de raiva e medo.
— Inês, estamos metidos num sarilho dos grandes. Houve buscas no escritório. A Ana entregou-nos à polícia.
— O quê?! — A voz dela subiu tanto que quase lhe feriu o ouvido. — Como assim entregou-nos? Tu disseste que tinhas tudo controlado!
— Tinha tudo controlado enquanto ela se manteve calada! — rosnou Rui. — Ela sabia de todas as operações, Inês. Todas. Estás a perceber? Aquela atividade em nome individual que abriste, por onde fizemos passar parte do dinheiro em numerário, também vai aparecer. Tu constas como beneficiária. Isso é cumplicidade. Podes apanhar o mesmo processo que eu.
— Que processo?! — Inês perdeu completamente o tom arrogante. Agora gritava de pânico. — Tu prometeste que eu não corria risco nenhum! Disseste: “Assina os papéis, recebes o dinheiro e pronto.” Rui, eu tenho um filho pequeno!
— E eu tenho a vida inteira a arder! — berrou ele de volta. — O teu apartamento, muito provavelmente, vai ser arrestado. Foi comprado com dinheiro de origem criminosa.
