E, naquele ano, o Ano Novo não lhe pareceu um começo. Pareceu antes uma marca no calendário, o ponto a partir do qual tudo passaria a contar.
Miguel regressou a cinco de janeiro. Não no primeiro dia, nem no segundo. Precisamente no quinto, quando a euforia das festas já começava a desfazer-se e ficava apenas aquela sensação pesada, pegajosa, de que qualquer coisa tinha corrido mal.
Abriu a porta com a própria chave. Devagar, sem bater, sem ruído. Como se soubesse, antes mesmo de entrar, que ali já não havia espaço para gestos bruscos.
— Cheguei — anunciou para o vazio do corredor.
— Ouvi — respondeu Ana, da sala. — Tira os sapatos.
Ele obedeceu. Avançou, alinhou as botas junto à parede com um cuidado quase antigo, como fazia noutros tempos, quando ainda acreditava que esses pequenos gestos podiam mudar alguma coisa. Pendurou o casaco no cabide. Não trazia saco nenhum. Nem presentes. Nem flores. Nada.
— Bom ano — disse, atrapalhado, aparecendo à entrada da sala.
— Para ti também — respondeu ela, sem se levantar do sofá. — A tua mãe está bem?
— Está — respondeu ele depressa demais. — Um vizinho ajudou com o aquecimento. Por agora.
— “Por agora” é sempre a medida de tudo, não é? — Ana assentiu lentamente. — Senta-te, já que vieste.
Miguel sentou-se. Durante alguns instantes, ficou calado, como se precisasse de reunir coragem.
— Ana — começou, por fim. — Temos de conversar. Sem gritos. Como adultos.
— Concordo plenamente — disse ela, olhando-o de frente. — Também estou cansada de discutir aos berros. O que quero é clareza.
Ele engoliu em seco.
— Tu mudaste — afirmou. — Antes eras mais doce.
— Não — corrigiu Ana, sem levantar a voz. — Antes eu aguentava.
— Isso é a mesma coisa.
— Não, Miguel. Ter paciência é saber por que se suporta alguma coisa. Eu suportava apenas porque tinha medo de conflitos.
— E agora já não tens?
— Agora tenho medo de outra coisa. De acordar daqui a cinco anos e perceber que passei esse tempo a viver uma vida que não era minha.
Miguel desviou os olhos.
— A minha mãe disse que a apagaste da tua vida.
— Não apaguei ninguém — respondeu Ana, cansada. — Só não aceito continuar a viver dentro do enredo que ela escreveu para nós.
— Ela é uma pessoa de idade.
— Tem sessenta e cinco anos. Quando lhe convém, tem mais energia do que nós os dois juntos.
— Estás a ser injusta.
— Talvez. Mas estou a ser sincera.
Ele soltou o ar com força, como se aquilo o ferisse.
— Sabes o que ela me disse no dia um de janeiro?
— Consigo imaginar.
— Disse-me: “Se a escolheres a ela, perdes-me a mim.”
Ana ergueu as sobrancelhas devagar.
— E vieste cá para me transmitir o recado?
— Não — Miguel abanou a cabeça. — Vim porque percebi que me estão a encostar à parede. Ela de um lado. Tu do outro.
— Eu não te encostei a lado nenhum — disse Ana, num tom firme. — Limitei-me a dizer onde acaba a minha tolerância.
— E isso não é obrigar-me a escolher?
— Não. Isso chama-se definir as condições da minha própria vida.
A amargura apareceu-lhe então na voz.
— Tu pões-te sempre em primeiro lugar. E eu? E a minha mãe?
Ana não desviou o olhar.
— Alguém tem de me pôr em primeiro lugar — respondeu ela, serena.
