— Tu nunca o fizeste — acrescentou Ana, sem levantar a voz. — Portanto, vou ter de ser eu.
Miguel apertou os lábios.
— Uma família vive de cedências.
— Cedência é quando os dois lados abdicam de alguma coisa — respondeu ela, inclinando-se ligeiramente para a frente. — Aqui, quem foi cedendo fui eu. O meu tempo. A minha paz. A minha casa.
— Estás a exagerar.
— Não, Miguel. Pela primeira vez, estou a chamar as coisas pelo nome.
Ele levantou-se, incapaz de ficar quieto, e deu alguns passos pela sala.
— Eu não posso abandonar a minha mãe.
— E eu não te estou a pedir isso.
— Mas também não a queres aceitar.
— Dentro da minha casa, não.
— Então não há saída?
Ana fitou-o durante alguns segundos, com uma calma que doía mais do que uma discussão. Depois assentiu.
— Não. E é melhor admitirmos isso.
Miguel baixou a voz.
— Já tinhas decidido tudo?
— Sim.
— Desde quando?
Ela respirou fundo antes de responder.
— Algures entre a tua mensagem a dizer “falamos depois das festas” e o primeiro dia de janeiro. Eu estava aqui, sozinha, a ouvir os vizinhos gritarem “Feliz Ano Novo”, e percebi uma coisa: estava tranquila. Pela primeira vez em muito tempo.
— Tranquila… sem mim?
— Sim.
Ele voltou a sentar-se, curvado, como se de repente o corpo lhe pesasse.
— E agora?
— Agora tratamos do divórcio — disse Ana, com uma serenidade quase fria. — Sem gritos. Sem guerras. Sem partilhas mesquinhas. Apenas o fim.
— E se eu tentar mudar?
Ana abanou a cabeça devagar.
— Já tentaste. Mas nunca por nós. Tentaste para que todos ficassem confortáveis. Todos, menos eu.
— Eu amo-te.
— Eu sei. Mas o amor, quando não traz respeito, não chega.
Ficaram em silêncio. Lá fora, alguém raspava o gelo do passeio; o som seco atravessava a janela e parecia cortar o ar da sala.
Ao fim de algum tempo, Miguel falou:
— Vou sair. Hoje.
— Está bem.
— Nem vais perguntar para onde?
— Isso é uma escolha tua — respondeu ela. — Como foram tantas outras.
Ele acenou com a cabeça, levantou-se e foi para o quarto. Ana permaneceu onde estava, sem o seguir, a ouvir gavetas a abrir, fechos a correr, passos contidos.
Quarenta minutos depois, Miguel apareceu no corredor com uma mala na mão.
— Se algum dia… — começou.
— Não — interrompeu Ana, num tom baixo, mas firme. — Não deixes esse “se algum dia” pendurado. É mais fácil fechar a porta sem ele.
Miguel olhou para ela uma última vez.
— Ficaste dura.
— Fiquei honesta.
A porta fechou-se.
Um mês depois, o divórcio ficou concluído. Sem cenas. Sem lágrimas encenadas. Sem acusações atiradas para cima da mesa. A juíza, cansada, fez as perguntas habituais; eles deram as respostas esperadas.
Quando saiu para a rua, Ana encheu os pulmões com o ar gelado. Janeiro estava cinzento, mas limpo, quase transparente.
Não destruí uma família, pensou. Apenas deixei de ser conveniente.
O telemóvel vibrou. Era uma amiga.
— Então?
— Está feito — disse Ana. — Estou livre.
— Então vive.
Ana guardou o telefone no bolso, começou a caminhar pela rua fria e, pela primeira vez em muito tempo, não pensou no que devia a alguém. Pensou no que queria para si.
E aquele pareceu-lhe o início de ano mais certo que podia ter tido.
