A minha mãe punha esta casa na ordem em menos de uma semana! E educava os miúdos como deve ser, não como tu, que os deixaste completamente sem rédea! O Tiago passa os dias encostado na faculdade, a Inês anda sempre com aquelas amigas…
— Chega — Ana ergueu a mão, num gesto seco. — Já chega.
— Não chega nada! — Miguel já gritava, vermelho de raiva. — Amanhã vais ao banco! Estás a ouvir-me? Ou então fazes as malas e desapareces!
A porta do quarto de Inês entreabriu-se devagar. No vão surgiu o rosto pálido da menina, os olhos brilhantes de lágrimas.
— Mãe?
Ana recompôs-se no mesmo instante, como se tivesse fechado uma ferida à pressa.
— Está tudo bem, querida. Volta para a cama.
— Não está tudo bem coisa nenhuma! — berrou Miguel. — Inês, vem cá! É bom que saibas que espécie de mãe tens! Uma egoísta, gananciosa…
— Cala-te já! — Ana colocou-se entre ele e o corredor. — Não te atrevas. Não metas os miúdos nisto.
Inês começou a chorar e fechou a porta. Poucos segundos depois, ouviu-se música alta vinda do quarto; a rapariga aumentara o volume para abafar as vozes.
Miguel respirava com força, como um animal encurralado. Ana ficou imóvel diante dele e, pela primeira vez em muitos anos, viu-o sem disfarces. Sem o papel de marido dedicado, sem o verniz de homem de família. À sua frente estava apenas alguém habituado a receber tudo, a exigir tudo, sem se sentir obrigado a dar fosse o que fosse. Um manipulador, mesquinho e convencido de que os outros existiam para o servir.
— Então escuta-me com atenção — disse ela, devagar, pronunciando cada palavra como se a cravasse no chão. — Eu não vou ao banco. Não vou pedir crédito nenhum. E não vou comprar carro nenhum para a tua mãe.
— Então divorcio-me de ti! — os olhos dele cintilaram. — E vais ficar sem nada!
— Veremos — respondeu Ana.
Foi para o quarto, abriu o armário, puxou uma mala pequena e começou a atirar lá para dentro roupa, documentos, o carregador do telemóvel.
Miguel seguiu-a.
— O que pensas que estás a fazer?
— Aquilo que devia ter feito há muito tempo. Vou sair daqui. Por uns dias. Preciso de pensar.
— Ana! — a voz dele mudou de tom. Havia nela qualquer coisa nova: insegurança, talvez medo. — Estás a falar a sério?
— Mais a sério do que nunca.
— E para onde vais? Tu não tens ninguém!
Ana fechou o fecho da mala. Era verdade. Para onde iria? Os pais tinham morrido há anos, amizades verdadeiras quase não restavam; nunca houvera tempo para as alimentar. Havia sempre trabalho, casa, filhos, contas, responsabilidades. Mas, naquele momento, isso já não a prendia.
— Hei de encontrar um sítio. Um hotel serve.
— Com que dinheiro? — troçou ele. — Com esse teu ordenado de miséria?
— Com o meu dinheiro — pegou no telemóvel e na mala. — Aquele que ganho honestamente.
Já à porta, ainda se voltou.
— E mais uma coisa, Miguel. A casa não é só tua. Durante dezassete anos paguei a prestação exatamente como tu. Tenho comprovativos de todas as transferências. Por isso, não tentes assustar-me. E quanto aos miúdos, não os vais levar a lado nenhum. Trabalhas de manhã à noite. Quem ficaria com eles? A tua mãe?
Saiu.
Escadas. Porta do prédio. Rua.
A noite recebeu-a com frio e silêncio. Ana parou no passeio e inspirou fundo, como se só então o ar lhe coubesse nos pulmões.
Pela primeira vez em muitos anos, sentiu medo a sério. Mas, misturado com esse medo, veio também um alívio quase físico. Era como se tivesse largado dos ombros um saco enorme, cheio de pedras que carregara sem perceber.
O processo de divórcio arrastou-se por três meses. Miguel tentou ficar com a casa, repetindo que fora ele quem pagara a maior parte. Levou até a mãe como testemunha. A mulher chorou no tribunal, jurou que Ana nunca tinha trabalhado de verdade, que se limitara a ficar em casa a gastar o dinheiro do marido.
Mas a advogada de Ana — uma senhora mais velha, de olhar duro como aço e uma firmeza que não admitia rodeios — pousou diante do juiz um conjunto de pastas e documentos. Extratos bancários de dezassete anos. Cada prestação da casa, paga metade por metade. Recibos da luz, da água, do gás, da internet — quase sempre liquidados por Ana. Talões de roupa dos filhos, supermercado, medicamentos, material escolar. Tudo suportado por ela. Até o malfadado fato de trezentos euros com que Miguel gostava de se exibir no trabalho tinha sido pago com o cartão dela.
— Meritíssimo — disse a advogada, serena, mas com uma gravidade que encheu a sala —, não está perante uma mulher sustentada pelo marido. Está perante uma mulher que contribuiu em igualdade para a família, criou os filhos, manteve a casa e, ao mesmo tempo, viveu anos sob pressão emocional constante. Os documentos demonstram de forma inequívoca que a minha constituinte tem direito a metade do património adquirido durante o casamento.
O juiz, um homem de idade, sobrancelhas grisalhas e expressão cansada, analisou os papéis durante longos minutos. Depois levantou os olhos por cima dos óculos e fixou Miguel.
— Tem alguma contestação? Alguma prova documental que contrarie estes elementos?
Miguel permaneceu calado. Ao lado dele, a mãe apertava os lábios numa linha fina, rígida de ressentimento.
A decisão foi clara: a casa pertencia a ambos em partes iguais. Miguel teria de pagar a Ana a parte que lhe cabia ou, em alternativa, o imóvel seria vendido e o dinheiro dividido.
