Pagar-lhe a parte dela estava fora de questão. Depressa se percebeu que, afinal, o dinheiro de Miguel existia mais nas palavras do que na conta bancária. O salário, de que tanto se gabava, desaparecia em restaurantes, no carro e nas “necessidades sem fim” da mãe e de Catarina.
— Então vende-se — declarou Ana, sem hesitação.
Miguel lançou-lhe um olhar carregado de rancor.
— Sempre foste uma víbora. Só fingias bem.
Pela primeira vez desde o divórcio, Ana sorriu-lhe sem medo.
— Não. Apenas deixei de ser conveniente.
O apartamento acabou por ser vendido por um valor bastante bom. Com a sua parte, Ana comprou um T2 no mesmo bairro, para ela e para Inês. Tiago continuava na universidade e vivia na residência de estudantes, mas sabia que aquela casa também era dele e que a porta estaria sempre aberta. Ainda sobrou dinheiro para obras, para mobilar algumas divisões com calma e até para pôr alguma coisa de lado.
Depois do divórcio, Miguel praticamente desapareceu da vida deles. Uma semana mais tarde, telefonou-lhe com uma voz áspera, irritada.
— Vou para o Norte da Europa. Arranjei trabalho. Pagam-me o dobro. Vou ficar por lá.
— Está bem — respondeu Ana. — Que corra tudo bem.
— E os miúdos?
— Os miúdos ficam comigo. Mas podes vê-los, se quiseres.
Ele não quis. Três dias depois, foi-se embora. Passada mais uma semana, a mãe dele e Catarina, com o bebé recém-nascido, seguiram o mesmo caminho. Antes de partir, a antiga sogra ainda ligou a Ana.
— Destruíste a nossa família! Por tua causa, o meu filho vai enfiar-se no fim do mundo!
— Por minha causa? — Ana deixou escapar um sorriso frio. — Ele perdeu a família por vossa causa. Foram vocês que o educaram assim: exigente, egoísta, convencido de que todos lhe deviam alguma coisa. Agora vão atrás dele. Vivam desse salário “maravilhoso”. Só há uma coisa curiosa, sabe?
— O quê? — rosnou a mulher do outro lado.
— Que lá a vida é caríssima. Muito mais cara. A renda, as contas, a comida… tudo pesa três vezes mais do que em Lisboa. E há meses inteiros de frio, escuridão e tédio. Desejo-vos sorte.
Desligou e nunca mais atendeu uma chamada daquela mulher.
Passaram seis meses.
Ana estava junto à janela do novo apartamento, com uma chávena de café quente entre as mãos. Lá fora, a primavera espalhava-se pelas ruas: viva, ruidosa, cheia de cheiro a lilases. Inês preparava-se para ir para a escola e cantarolava qualquer coisa no corredor. Tiago tinha chegado na véspera para passar o fim de semana e trouxera a namorada, uma rapariga universitária de olhar inteligente e sorriso tranquilo.
— Mãe, esta é a Beatriz.
Ana observou a forma como o filho olhava para ela. Havia respeito ali. Cuidado. Igualdade. Talvez, apesar de tudo, ela tivesse conseguido ensinar-lhe alguma coisa importante.
No salão, as coisas também iam bem. Ana contratara duas aprendizes, raparigas novas, vindas de uma escola profissional, que queriam aprender a trabalhar como manicures. À noite, depois do expediente, ensinava-lhes tudo com paciência. Mas não lhes transmitia apenas uma profissão. Dava-lhes também uma certeza: era possível viver do próprio trabalho. Era possível não depender de ninguém. Era possível, sim.
Na véspera, acontecera-lhe algo estranho. Tinha entrado numa livraria sem qualquer plano, só para espreitar as prateleiras. Havia anos que não comprava um livro para si; o tempo, como sempre, tinha sido gasto com os outros. Então viu uma coletânea de poemas. Abriu-a ao acaso e leu:
“Pensei que a isso se chamava viver. Afinal, chamava-se aguentar.”
Ficou parada no meio da loja e começou a chorar. Em silêncio, para que ninguém reparasse. Porque aquelas palavras falavam dela. Da vida inteira que deixara para trás.
Comprou o livro. Levou-o para casa. Pousou-o na mesa de cabeceira.
Nessa noite, Inês perguntou-lhe:
— Mãe, tu és feliz?
Ana ficou pensativa. Feliz? Não tinha marido. Mas também já não tinha ao lado alguém que a diminuía todos os dias. O apartamento era simples. Mas podia arrumá-lo como quisesse, escolher as cores das paredes, pendurar os quadros de que gostava, convidar quem lhe apetecesse ou não receber ninguém. Não tinha um carro caro à porta. Mas tinha a liberdade de acordar e saber que aquele dia lhe pertencia.
— Sabes, meu amor — disse, abraçando a filha — não sei se sou feliz. Mas sei uma coisa com toda a certeza: finalmente estou viva. Viva de verdade.
Inês encostou-se ainda mais a ela.
Foi nesse instante que chegou uma mensagem de Miguel. A primeira em meio ano.
“Ana, eu estava enganado. Podemos falar?”
Ana olhou para o ecrã durante alguns segundos. Depois apagou a mensagem sem responder.
Uma brisa morna entrou pela janela e fez estremecer a cortina. Lá em baixo, crianças brincavam e riam. A vida continuava a mover-se, a chamar, a abrir caminho.
E Ana pensou em como era bom ter aprendido, por fim, a dizer não. Uma palavra pequena, quase insignificante, mas que lhe tinha aberto um mundo inteiro. Um mundo onde podia respirar livremente.
Terminou o café e sorriu. Sem esforço. Sem fingimento. Não por hábito, nem por educação.
Sorriu porque lhe apetecia.
E isso, para ela, era um verdadeiro milagre.
