Maria entrou de rompante, embrulhada no seu eterno robe, com uma expressão no rosto digna de uma actriz trágica em pleno palco.
— Ana, minha querida, eu percebo tudo, estás cansada. Mas não se vira a vida de uma família do avesso assim, de um minuto para o outro! Somos uma família!
— Família é quando as decisões são tomadas em conjunto — respondeu Ana. — Quando tiram quinhentos euros sem me perguntar, isso tem outro nome. Chama-se roubo.
— Estás a acusar-me de roubar?! — Maria abriu os braços, ofendida até à medula. — Tudo o que fiz foi por esta casa!
— Pela filha da tua irmã — corrigiu Ana, sem levantar a voz. — A família, aqui dentro, somos tu, o João e eu. A tua sobrinha que trate das dívidas dela.
— És cruel! — fungou Maria. — Tens uma pedra no lugar do coração.
— Não. Tenho é cansaço acumulado.
Ao ver a mãe encenar o sofrimento, João achou que também devia entrar em cena.
— Portanto, Ana, se pensas que mandas aqui sozinha, estás muito enganada. Esta casa também é minha. Metade é minha!
Ana pousou a chávena com cuidado sobre a mesa.
— E então? Metade é tua, metade é minha. A diferença é que sou eu quem paga tudo.
— Estás a insinuar que vivo à tua custa? — João ficou vermelho de raiva.
— Não estou a insinuar — disse ela, calma. — Estou a dizer-te directamente.
— Se eu quisesse, já estava a trabalhar há muito tempo! — explodiu ele. — Só que não vou humilhar-me por meia dúzia de tostões.
— Claro. Mas pedir dinheiro à tua mulher para comprar um telemóvel já não é humilhação? — Ana deixou escapar um sorriso frio.
— Estás a gozar comigo — atirou ele, furioso.
— Não, João. Estou apenas a chamar as coisas pelo nome.
Maria perdeu de vez a paciência e bateu com a mão na mesa.
— Chega desta palhaçada! Ana, tens de compreender que para os homens hoje em dia está tudo muito difícil. Não há empregos decentes. Tu, pelo contrário, ganhas bem. Portanto, não te faças de vítima!
Ana virou-se para ela.
— Maria, a senhora também não trabalha. Porque é que eu tenho de sustentar duas pessoas ao mesmo tempo?
— Porque tu és nova, tens saúde e forças. Eu já estou velha. Tenho direito a descansar.
— Velha? — Ana arregalou os olhos. — Há cinco anos foi para a Turquia com uma amiga, dançou em discotecas até de madrugada e voltou cheia de fotografias. Tem mais energia do que eu.
João soltou uma gargalhada, mas calou-se no mesmo instante ao cruzar-se com o olhar da mãe.
— E qual é o problema de ela ter dançado? — resmungou ele. — Tem esse direito.
— Tem, sim — concordou Ana. — Com o dinheiro dela. Não com o meu.
O silêncio voltou a cair sobre a cozinha. Parecia até que o frigorífico tinha deixado de trabalhar para não incomodar.
— Muito bem — disse por fim Maria, com um sorriso tenso e falso. — Está bem. Se queres ser tão cheia de princípios, havemos de nos arranjar sozinhos.
Ana sentiu o corpo contrair-se por dentro. Conhecia demasiado bem aquele “sozinhos”. Significava que, dentro de poucos dias, começariam as lágrimas, os telefonemas dramáticos e as frases ensaiadas: “Não temos pão”, “Não há dinheiro para a farmácia”, “Queres que morramos à fome?”
E foi exactamente isso que aconteceu. Nessa noite, quando Ana regressou do trabalho, encontrou um bilhete em cima da mesa da cozinha:
“Não há pão. Também não há dinheiro. Ao menos tem pena da criança, estamos aqui cheios de fome.”
Assinado: “a mãe e o João”.
Ana leu aquilo com uma expressão de incredulidade amarga.
— Pena da criança? — murmurou. — Da criança de quarenta e dois anos? Isto já não é uma criança, é um reformado de fato de treino.
Cinco minutos depois, João chegou a casa e iniciou imediatamente a sua representação.
— Ana, o que é que estás a fazer? Passei o dia inteiro sem comer. A mãe também.
— E por que motivo isso é problema meu? — perguntou ela, encolhendo os ombros. — As lojas estão cheias de anúncios a pedir empregados. Vais, trabalhas e compras pão.
— Estás a brincar comigo? Eu sou engenheiro! — indignou-se João. — Trabalhar numa caixa de supermercado seria uma humilhação!
— E pedir dinheiro à tua mulher não é?
— Isso é diferente! Somos família!
— Família não significa uma pessoa rebentar a trabalhar enquanto duas descansam — disse Ana. — Acabou, João. Usa a cabeça.
Ele calou-se. O rosto fechou-se-lhe, escuro e duro.
— Está bem — disse em voz baixa. — Se achas que eu não me desenrasco, vais ver.
E saiu, batendo a porta atrás de si.
Ana ficou sozinha na cozinha e, pela primeira vez em muitos anos, teve a sensação de que alguma coisa começava realmente a mudar. Ainda assim, uma inquietação não a largava. Conhecia bem demais aqueles dois: não desistiriam com tanta facilidade.
“Pois que seja”, pensou. “Se a torneira do dinheiro ficou fechada, então fica fechada.”
Ao terceiro dia depois de ter bloqueado os cartões, a casa começou finalmente a mostrar-lhe a próxima jogada deles.
