Abriu uma das gavetas e retirou uma pasta grossa, onde guardava os documentos importantes. Para sua própria surpresa, os dedos não lhe tremiam.
— Ponha-se já daqui para fora! — guinchou Teresa. — Esta casa é do meu filho, eu tenho todo o direito de…
— Não tem. — Ana pousou o contrato sobre a cómoda. — Está aqui. Comprei este apartamento antes de me casar, com o meu dinheiro.
Falava baixo, quase sem alterar a voz, mas cada palavra cortava o silêncio como uma lâmina.
— Portanto, quem vai sair agora é a senhora. E vai sair imediatamente.
Teresa agarrou os papéis com as mãos trémulas e percorreu as linhas à pressa. A cor desapareceu-lhe do rosto.
— Miguel! — berrou. — Miguel, vem cá agora!
— O Miguel está a trabalhar. Quando voltar, conversaremos os três.
— Tu… tu queres destruir esta família! Estás a virar o meu filho contra a própria mãe!
— Estou a proteger a minha família de alguém que, durante três anos, tratou a nossa casa como se fosse uma propriedade sua.
Teresa começou a andar de um lado para o outro pela sala, cercada por aquelas paredes azuis que ela própria impusera, monumentos vivos à sua “preocupação”.
— O Miguel nunca me vai abandonar! Eu sou mãe dele!
— E eu sou mulher dele. E mãe do filho dele. — Ana aproximou-se da janela. — Veremos quem ele decide ouvir.
— Mas quem julgas que és?!
— Ninguém de especial. Apenas percebi, finalmente, que o meu silêncio estava a ser tomado por autorização.
Ana voltou-se para ela.
— Durante três anos convenci-me de que aguentava. Pensei que a senhora acabaria por perceber, por se habituar. Mas a senhora não se habitua. A senhora ocupa, manda, conquista.
— Eu só quis ajudar!
— Não. Quis mandar. E conseguiu, enquanto eu me calei.
Miguel chegou cerca de uma hora depois. Encontrou a mãe sentada na cozinha, de olhos inchados e vermelhos, e Ana na sala, com a pasta dos documentos nas mãos.
— O que se passa aqui? — perguntou, olhando de uma para a outra, sem compreender.
— A tua mulher enlouqueceu! — Teresa levantou-se de um salto. — Quer pôr-me na rua! Está a ameaçar-me!
— Ana?
— Expliquei quem decide nesta casa — respondeu ela, serena. — E estabeleci limites.
— Que limites?
— Os mais básicos. Não entrar sem ser convidada. Não dar ordens numa casa que não é sua. Não transformar o quarto do nosso filho sem consentimento dos pais.
Miguel ficou calado. O olhar dele ia da mãe para a mulher e voltava.
— Miguelinho, diz alguma coisa! — Teresa agarrou-se a ele. — Eu sou tua mãe! Tenho direito…
— A quê? — Ana estendeu-lhe o contrato. — Que direito tem a senhora dentro da minha casa?
