Miguel recebeu-lhe os papéis das mãos e leu-os com atenção. À medida que avançava, a expressão foi-se-lhe fechando.
— Mãe… — disse por fim, num tom baixo, mas firme. — A Ana tem razão.
— O quê?!
— Passaste todos os limites. — Miguel encarou Teresa sem desviar os olhos. — Esta casa é dela. É nossa. Da nossa família.
Teresa recuou um passo, como se aquelas palavras lhe tivessem acertado em cheio no rosto.
— Então é isso? Escolhes ela em vez de mim?
— Escolho a minha mulher e o meu filho.
— Muito bonito — murmurou a sogra, com a voz afiada, agarrando a mala antes de se dirigir para a entrada. — Quando ela te deixar, não venhas chorar para o meu colo!
Ana manteve-se direita.
— Quando aprender a respeitar os limites dos outros, será sempre bem-vinda — respondeu, sem levantar a voz. — Enquanto isso não acontecer, é melhor despedirmo-nos.
A porta fechou-se com estrondo. Depois, instalou-se um silêncio espesso no apartamento.
Miguel aproximou-se e envolveu Ana nos braços.
— Não terá sido duro demais? Afinal, ela só…
— Ela estava a tomar posse — interrompeu Ana, encostando-se ao peito dele. — Devagarinho, como quem não quer nada. Mais um ano e estaria a dizer-nos como alimentar o bebé. Dois anos e seria ela a decidir a escola para onde ele iria.
— E se ela nunca mais voltar?
— Vai voltar. Quando perceber que aqui existem regras.
Um mês depois, Teresa telefonou. A voz vinha contida, quase humilde, tão diferente da habitual que Ana demorou um segundo a reconhecê-la.
— Eu podia… passar aí? Só para ver como estão.
— Claro. Amanhã à tarde dá-lhe jeito?
— Dá. E… posso levar alguma coisa para o meu neto?
— Pode trazer. Mas o que fica ou não fica cá em casa sou eu que decido.
Houve uma pausa.
— Compreendo.
No dia seguinte, Teresa apareceu com um pequeno peluche e um ramo de flores. À entrada, tirou os sapatos sem que ninguém lhe pedisse e perguntou, com cuidado, se podia espreitar o quarto do bebé.
Parou diante das paredes agora pintadas de amarelo.
— Voltaram a pintar.
— Sim — respondeu Ana. — Da cor que nós escolhemos.
Teresa ficou calada por uns instantes.
— Está bonito — disse por fim. — Aconchegante.
Durante o chá, conversaram pouco. Ainda assim, pela primeira vez em três anos, o ar dentro daquela casa parecia leve.
Antes de sair, Teresa hesitou junto à porta.
— Quando o bebé nascer… poderei vir de vez em quando?
— Poderá — disse Ana. — Quando for convidada.
Teresa assentiu, séria.
— Quando for convidada.
Ana fechou a porta atrás dela e ficou encostada à madeira, de olhos fechados. Nesse instante, o bebé deu-lhe um pontapé forte, alegre, quase triunfante.
Ela pousou a mão sobre a barriga e sorriu.
— Agora sim, meu pequenino. Estamos em casa. Numa casa de verdade, onde a tua mãe sabe proteger aquilo que importa.
No quarto amarelo, a cortina dos coelhinhos balançava suavemente com a corrente de ar — a mesma que tinham comprado no dia em que souberam que tu vinhas a caminho.
