Por fim, a voz saiu-lhe mais baixa do que esperava:
— Estás mesmo a falar a sério?
— Estou.
Tiago afastou a cadeira com um gesto brusco.
— E queres que eu vá para onde?
— Fazes exatamente o que me mandaste fazer: abres os anúncios e escolhes.
— Ana, eu moro aqui há sete anos. Tenho o trabalho perto, a minha rotina toda está montada nesta zona.
— Então procura por aqui perto.
— Tens noção do difícil que isso é?
— Tenho. Foi precisamente isso que me sugeriste nos últimos dias.
Ele levantou-se e deu duas voltas pela cozinha, irritado, como se as paredes lhe tivessem ficado subitamente estreitas.
— E a minha mãe? Ela já estava a preparar-se para deixar o apartamento dela.
— A tua mãe tem onde viver.
— Eu prometi-lhe um quarto.
— Prometeste-lhe um quarto que não era teu. Agora cabe-te explicar-lhe isso.
Aquela frase mudou mais do que todas as discussões anteriores juntas.
Até ali, Tiago comportara-se como se entre mim e a mãe dele tivesse surgido um pequeno mal-entendido desagradável, e como se fosse minha obrigação resolvê-lo sem fazer ondas.
Dessa vez, porém, a responsabilidade voltou finalmente para a pessoa que tinha inventado o plano.
Pouco depois, ele pegou no telemóvel e ligou a Helena.
— Mãe, por enquanto não desmontes os móveis. E não avances com nada em relação ao teu apartamento.
Não consegui ouvir o que ela respondeu, mas a frase seguinte de Tiago saiu bastante mais alta:
— Porque a Ana fica aqui.
Passados alguns minutos, foi o meu telemóvel que começou a tocar.
— Ana, o que é isso de ficares aí? — perguntou Helena, sem qualquer cumprimento. — O Tiago prometeu-me aquele quarto.
— Então fale com o Tiago.
— Eu já tinha avisado pessoas de que ia arrendar o meu apartamento.
— Nesse caso, vai ter de alterar os planos.
— Percebes a situação em que nos estás a pôr?
— Percebo perfeitamente. Há poucos dias, puseram-me exatamente na mesma. Com a diferença de que ainda tiveram tempo para vir medir a parede.
A minha sogra indignou-se. Disse que pessoas adultas deviam resolver estes assuntos em família.
— Concordo — respondi. — Por isso, o primeiro passo devia ter sido falar com a proprietária do apartamento.
Depois disso, desligou.
Tiago apareceu à minha frente com o rosto fechado.
— Era mesmo necessário falares assim com a minha mãe? Ela acreditou em mim.
— Precisamente por isso és tu quem tem de lhe dar explicações.
Ele abriu a boca para responder, mas acabou por se calar.
Na noite seguinte, Tiago sentou-se à mesa e começou a procurar casas. Primeiro limitou a pesquisa ao nosso bairro.
O primeiro anúncio caiu logo por causa da distância aos transportes. No segundo, a cozinha pareceu-lhe pequena. O terceiro ficava mais longe do trabalho do que ele considerava aceitável.
A certa altura, virou o ecrã na minha direção.
— Vê este. Daqui, de manhã, é um inferno chegar ao emprego.
Olhei apenas de relance.
— O importante é não ficar preso a uma única zona.
Ele reconheceu imediatamente a própria frase.
Guardou o telemóvel e não disse mais nada.
Nos dias seguintes, foi ver vários apartamentos. Aos poucos, a área de procura alargou-se, enquanto a lista de exigências indispensáveis encolhia.
Quando regressou de mais uma visita, tirou o casaco com mau humor.
— Encontrar uma casa decente não é nada simples — resmungou ele, preparando-se para enumerar defeito atrás de defeito.
