“Depois do divórcio, a minha mãe vem viver para aqui” — anunciou Tiago, dando como certo que Ana teria de sair do apartamento que comprara

Histórias
Essa atitude é mesquinha e profundamente injusta.

— Numa, a cozinha mal dá para virar o corpo; noutra, os transportes ficam longe e o caminho é péssimo.

— Eu sei.

— Tu viste casas durante dois dias.

— E tu, nesses mesmos dois dias, já decidiste por mim o que me servia.

Tiago fitou-me por instantes e deixou a conversa morrer ali.

Helena também acabou por deixar de aparecer com a fita métrica na mala.

Certo dia, porém, surgiu precisamente antes de Tiago sair para mais uma visita a um apartamento.

— Talvez seja melhor não arrendares nada já — sugeriu ela ao filho. — Pode ser que a Ana ainda volte atrás.

— Não vai voltar.

— Fala com ela outra vez. Explica-lhe que já me tinhas prometido.

Via-se que Tiago estava exausto daquela insistência.

— Mãe, eu prometi-te um quarto sobre o qual não tinha direito de decisão. Foi isso. Agora estou à procura de outra casa.

Helena virou os olhos para mim.

— E eu, então, fico onde?

— Por enquanto, continuas na tua casa.

— Não foi isso que me disseste antes.

— Enganei-me.

Desta vez, eu nem precisei de intervir.

Passadas algumas semanas, Tiago encontrou finalmente um apartamento aceitável.

Ficava noutra zona da cidade. O percurso até ao trabalho seria mais comprido e menos cómodo, mas a casa estava em bom estado e permitia-lhe mudar-se sem grandes obras nem complicações.

Tinha apenas uma divisão.

Quando contou a novidade à mãe, Helena perguntou de imediato:

— E eu durmo onde?

— Mãe, tu vais continuar no teu apartamento.

— E o aluguer da minha casa?

— Para já, não há aluguer nenhum.

— Muito bonito. Primeiro prometes-me uma coisa, depois decides outra.

Tiago respondeu com a voz cansada:

— Já te disse que me enganei.

No dia da mudança, Helena apareceu para ajudar o filho com as caixas.

Não voltou a mencionar o quartinho.

Tiago levou roupa, livros, equipamentos pessoais e tudo o que era realmente dele. Como já tínhamos combinado cada detalhe antes, não houve nova discussão.

A última coisa que tirou do armário foi um saco de desporto. Tinha sido com ele que, anos antes, viera morar comigo depois do casamento.

À entrada, separou as chaves do seu molho e pousou-as sobre a cómoda pequena do corredor.

— Nunca pensei que um dia fosse sair daqui — murmurou.

— Eu também passei alguns dias convencida de que quem ia sair era eu.

Ele olhou para mim com mais atenção.

— E porque mudaste de ideias?

— Fui confirmar os documentos. E deixei de resolver o teu problema de habitação com a minha casa.

Tiago não respondeu. Pegou no saco e saiu.

O divórcio ficou concluído quando já vivíamos em moradas diferentes.

Helena permaneceu no seu apartamento. A ideia de o esvaziar para se instalar junto do filho acabou por ser abandonada.

Tiago foi-se habituando ao novo bairro e ao caminho diferente para o emprego.

Ainda voltou algumas vezes para buscar objetos esquecidos. O último foi um carregador que ficara dentro do armário.

Na mensagem, escreveu: “Acho que ficou aí no teu apartamento.”

Encontrei o carregador e entreguei-lho quando nos vimos de novo.

As chaves já tinham sido devolvidas. Helena continuou na casa dela. E o quarto pequeno voltou a servir apenas para o meu trabalho.

A cómoda dela nunca saiu da outra morada.

Casa da Encarnação