“Pôs-me na rua!” gritou Catarina em lágrimas após Ana despejar as suas malas no patamar

Histórias
Ato cruel e indigno, impossível de aceitar.

Com a tua irmã, com a tua mãe, até no escritório, se te apetecer. A mim é-me indiferente.

— Estás a ameaçar-me?!

— Não, Miguel. Estou a proteger a minha casa. Estou a fazer aquilo que devia ter feito há duas semanas. Podes continuar a berrar, a ofender-me, a acusar-me do que quiseres. Mas cada palavra a mais aproxima-te de encontrares uma mala à porta. A escolha é tua.

Do outro lado, instalou-se um silêncio pesado. Miguel respirava fundo, como se só agora a adrenalina começasse a baixar e, no lugar dela, entrasse uma lucidez fria, desagradável.

— Espero a tua decisão até às sete — acrescentou Ana. — A tua irmã pode vir buscar as coisas entre as oito e as nove. Se vieres com ela, certifica-te de que não arma outro espetáculo. Não tenho forças para mais dramas. É só isto.

O sinal da chamada terminada soou-lhe como uma sentença.

Miguel deixou-se cair de novo na cadeira e ficou a olhar para o ecrã do telemóvel. A cabeça era um novelo. De um lado estava Catarina, a irmã mais nova que ele sempre protegera desde miúdo, a chorar-lhe ao ouvido como se o mundo tivesse sido injusto com ela. Do outro estava Ana, a mulher com quem vivia havia quatro anos, a mulher que amava… ou que julgava amar.

O telemóvel voltou a vibrar. Catarina.

— Então? Falaste com ela? Pediu desculpa? Quando é que posso voltar?

Miguel passou as mãos pelo rosto e deixou-as ficar ali por um instante.

— Catarina… conta-me outra vez. Mas agora com pormenores. Quero saber exatamente o que aconteceu.

— Como assim, “com pormenores”? — a irmã ofendeu-se logo. — Miguel, não acreditas em mim?

— Conta. Desde o princípio.

— Pronto… acordei, como de costume. Devia ser por volta das onze. Fui à cozinha…

— Às onze? — interrompeu ele. — E a que horas te deitaste?

— Sei lá… por volta das três, talvez. Estive a falar com as raparigas e depois acabei uma série…

— Espera. As raparigas estiveram lá em casa?

— Sim, passaram por lá. E então? Estivemos sossegadas!

Miguel lembrou-se de Ana, na segunda-feira, a apanhar em silêncio os cacos de um copo partido na sala, aquele que “tinha caído sozinho da prateleira”.

— Continua.

— Fui à cozinha porque queria tomar o pequeno-almoço, e ela estava lá. Começou logo a dizer que eu tinha de lavar a loiça que sujava. Eu disse que lavava depois, que primeiro precisava de comer. E ela respondeu que o meu “depois” acabava sempre à noite e que estava farta de andar a limpar atrás de mim. Estás a perceber? Como se eu fosse uma porca!

— E lavaste?

— Miguel! — protestou Catarina, indignada. — Mas afinal estás do lado de quem?

— Só fiz uma pergunta.

— Pronto… às vezes esquecia-me. Tenho exames à porta! Tenho de estudar!

Miguel fechou os olhos. Na boca de Catarina, “às vezes esquecia-me” significava quase sempre “nunca lavei nada”.

— E a seguir?

— Depois começou com a história do barulho à noite. Que ela se levanta cedo, que precisa de dormir. Está bem, às vezes ponho música, mas nem é assim tão alto! Além disso, a casa é grande, ela nem devia ouvir!

— É um T3, Catarina. Um apartamento com três quartos, não é um palácio.

— Seja como for! E então reparei que ela estava a passar a ferro um vestido meu. Aquele azul, o que usei na festa. Perguntei-lhe porque é que o tinha tirado, e ela disse que o vestido era dela! Consegues imaginar?

Qualquer coisa gelada se moveu no estômago de Miguel.

— Catarina. Esse vestido azul… é o mesmo que tinhas na fotografia do Instagram da semana passada?

— Sim! Era bonito, não era? Pensei que a Ana nem reparasse, ela já não o usava há imenso tempo…

— Meu Deus — murmurou Miguel. — Catarina, tu tiraste uma coisa dela sem autorização?

— Miguel, nós somos quase família! Qual é o drama? Irmãs emprestam roupa umas às outras!

— Vocês não são irmãs.

— Pronto, quase! E eu ia lavar e devolver, claro. Só que apareceu uma mancha sem querer…

— Que mancha?

— Sei lá… caiu um bocadinho de vinho. Tinto. Mas não foi de propósito!

Miguel sentiu a raiva que trazia preparada começar a desfazer-se, como fumo.

— E a Ana o que disse?

— Disse… disse que o vestido tinha custado duzentos euros e que só o tinha usado uma vez, num evento da empresa. Depois exigiu que eu pagasse a lavandaria ou comprasse outro igual. Eu respondi que não tinha dinheiro para isso. E que, por amor de Deus, era só um vestido, podia comprar outro. Nessa altura ficou branca como a parede e mandou-me sair de casa.

— E tu respondeste o quê?

— O que é que eu havia de responder?! — a voz de Catarina voltou a encher-se de ressentimento. — Disse que eu tinha ido para casa do meu irmão, que aquela também era a tua casa e que eu não ia para lado nenhum! Se ela não gostava, que se fosse ela embora!

Miguel arrastou a mão pela cara, cansado de repente.

— Catarina — disse, devagar. — Aquela não é a minha casa. É a casa da Ana.

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