— Comprou-a antes sequer de nos casarmos.
— E então? — atirou Catarina, como se aquilo não mudasse nada. — Vocês são marido e mulher!
— Quer dizer que, legalmente, eu apenas moro lá. A casa está em nome dela. Pertence-lhe.
— Mas és o marido dela!
— Precisamente por isso é que vivo naquela casa — respondeu Miguel, já sem paciência para rodeios. — Tu, não.
Do outro lado da chamada caiu um silêncio pesado. Não era preciso vê-la para perceber que Catarina estava a engolir a resposta.
— Portanto… estás do lado dela? — perguntou por fim, num fio de voz. — Contra a tua própria irmã?
Miguel fechou os olhos por um instante.
— Estou a tentar olhar para isto com alguma lucidez — disse, exausto. — Catarina, responde-me com honestidade. Limpavas o que sujavas?
— Eu… nem sempre…
— Lavavas a loiça?
— Miguel…
— Catarina. Sim ou não.
— Às vezes esquecia-me — murmurou ela.
— Levavas amigos lá para casa sem avisar?
— Foi só uma vez…
— Quantas vezes?
Houve uma hesitação.
— Duas — admitiu, baixinho. — Talvez três.
— E mexeste nas coisas da Ana sem lhe pedir autorização.
— Foi só um vestido! Eu ia devolvê-lo!
— Com uma nódoa de vinho.
Catarina fungou, magoada.
— Miguel, por que é que estás a ser tão cruel comigo? Eu não fiz de propósito! Pensei que… sei lá… somos família.
— Ser família não dá direito a comportarmo-nos como se a casa dos outros fosse nossa — respondeu ele, sentindo qualquer coisa dentro de si desmoronar-se de vez. — Portaste-te como uma miúda mal-educada, Catarina. E a Ana tinha todo o direito de te pôr na rua.
— Mas eu…
— Não. Agora ouve-me. Hoje à noite podes lá ir. Das oito às nove. Vais buscar tudo o que ainda ficou. Vais pedir desculpa à Ana. Desculpas a sério, como uma pessoa adulta. E depois sais. Vais para casa da mãe ou alugas um quarto. Dinheiro tens, com aquilo que te transferi.
— E o exame?
— Faltam dois dias para o exame. Dois dias chegam perfeitamente para encontrares uma solução provisória. Tens dezanove anos, Catarina. Está na altura de perceberes que as tuas escolhas têm consequências.
— Então é isso. Escolhes ela.
— Escolho o bom senso — corrigiu Miguel, a voz firme. — E sim, escolho a minha mulher. Porque ela tem razão. Em tudo.
— Vais arrepender-te disto! — gritou Catarina.
Logo a seguir, ouviu-se apenas o sinal seco da chamada desligada.
Miguel ficou a olhar para o telemóvel, imóvel durante alguns segundos, antes de soltar um suspiro fundo. Depois procurou o contacto de Ana e ligou.
Ela atendeu ao fim de poucos toques.
— Sim? — A voz vinha cautelosa, como quem se prepara para mais uma discussão.
— Desculpa — disse Miguel, sem tentar enfeitar a palavra. — Tinhas razão. Em tudo. Deixei-me levar pelas lágrimas dela e nem me dei ao trabalho de confirmar o que se passava. Desculpa-me.
Do outro lado, Ana não respondeu logo.
— Falaste com ela? — perguntou, por fim.
— Falei. E percebi que fui um idiota completo. Ana, desculpa. Por te ter gritado, por te ter ofendido, por não ter ficado do teu lado desde o primeiro momento. Tu aguentaste isto durante duas semanas e eu nem quis ver.
— Eu tentei falar contigo — disse ela, em voz baixa. — Mas tu arranjavas sempre uma desculpa. “Ela ainda é uma miúda.” “Vai habituar-se.” “Dá-lhe tempo.”
— Eu sei. Fui cego. Ou então preferi não ver. Era mais fácil fingir que estava tudo bem.
— Miguel… eu não sou nenhum monstro. Juro que tentei. Mas quando ela me disse que, se eu não gostava, então que me fosse embora da minha própria casa… aí percebi que tinha chegado ao limite. Se eu não acabasse com aquilo naquele momento, ela ficava. E ficava porque tu nunca ias conseguir dizer-lhe que não.
Miguel engoliu em seco.
— Tens razão — admitiu. — Eu não ia conseguir. Por isso, obrigado. Pelo menos um de nós teve coragem para fazer o que era necessário.
— Não estás zangado comigo?
— Comigo, estou. Muito. Contigo, não. Fizeste aquilo que eu devia ter feito. Protegeste a nossa casa.
Ana soltou um suspiro quase impercetível, e Miguel ouviu, naquele pequeno som, parte da tensão a abandonar-lhe o corpo.
— Ela vai aparecer logo?
— Vai. Só para levar as coisas. E eu vou estar presente, Ana. Vou garantir que corre tudo com calma. E que ela te pede desculpa. A sério.
— Está bem — respondeu ela, depois de uma breve pausa. — Miguel… talvez eu tenha exagerado quando te disse para levares as tuas coisas também.
— Não exageraste — interrompeu ele. — Eu mereci ouvir isso. Mas espero que me dês a oportunidade de reparar o estrago.
— Vamos ver — disse Ana, e desta vez havia um vestígio de sorriso na voz. — Para começar, trata de impedir que a tua irmã faça uma cena logo à noite.
— Não vai fazer. Prometo.
Quando desligou, Miguel reparou que a mão já não lhe tremia. Pela primeira vez naquele dia, sentia a cabeça limpa. Talvez pela primeira vez em duas semanas.
Olhou para o relógio. Ainda faltavam cinco horas até ao serão. Tempo suficiente para escolher bem as palavras de uma conversa difícil com Catarina. Uma conversa que devia ter acontecido muito antes.
Mas, até lá, havia um relatório para terminar.
Estava na altura de todos crescerem.
Incluindo ele.
