“Compraram uma casa? Que maravilha! Então está decidido: este verão passamos cá todos em família” — declarou Aurora, pousando as duas mãos sobre a mesa com um ar de satisfação absoluta

Histórias
Maravilhoso e inquietante, um verão de promessas frágeis.

À volta da mesa instalou-se um silêncio pesado.

Mariana foi a primeira a reagir.

— Estás a dizer que queres cobrar dinheiro à própria família por dormir aqui?

— Foram vocês que decidiram que vinham passar cá várias semanas — respondeu Catarina, sem alterar o tom.

— Mas nós não somos estranhos.

— Precisamente por isso deviam perceber que não é justo empurrar todos os custos para cima de nós.

Aurora endireitou-se na cadeira, como se aquela frase a tivesse ofendido pessoalmente.

— Desde quando é que se paga para descansar em casa de familiares?

— Uma coisa é aparecerem por umas horas, depois de serem convidados — disse Catarina. — Outra, bem diferente, é distribuírem quartos entre vocês e instalarem-se cá durante o verão inteiro por iniciativa própria.

— Nós não íamos incomodar ninguém.

Catarina desviou o olhar para as crianças, que nesse momento corriam em volta de um banco ainda por terminar. Uma delas já tinha apanhado uma embalagem de ferragens que Rui deixara junto ao alpendre.

— A casa e o terreno continuam em obras. Há ferramentas, parafusos, tábuas, tintas, cabos. Se ficarem cá crianças, teremos de andar sempre atrás delas para garantir que não se magoam. Só isso já altera tudo o que tínhamos planeado.

Mariana chamou o filho e tirou-lhe a embalagem das mãos.

— Então arruma-se o que for perigoso.

— Não temos uma divisão vazia onde possamos enfiar a obra inteira.

— Então para que é que compraram uma casa, se afinal não há espaço para ninguém? — atirou Mariana, já sem disfarçar a irritação.

Catarina inclinou ligeiramente a cabeça e fitou a cunhada com atenção.

— Comprámo-la para nós.

Aurora apertou a pega da mala com força.

— Rui, estás a ouvir a maneira como a tua mulher fala com a tua irmã?

Ele ergueu os olhos do caderno onde Catarina anotara as contas.

— Estou.

— E não tens nada a dizer?

Rui demorou a responder. Catarina não o apressou, nem tentou falar por ele. Se ele pretendia aceitar aquela ocupação familiar da casa, teria de o assumir em voz alta e explicar por que razão uma decisão daquelas podia ser tomada sem ela.

Aurora aproveitou a hesitação.

— Nunca pensei que uma casa mudasse tanto a Catarina. Antes era muito mais acolhedora.

— Antes ninguém nos tinha sugerido dormir numa tenda para vocês ficarem com o nosso quarto — replicou Catarina.

Carlos pigarreou e olhou para a mulher.

— A história da tenda foi exagerada, Aurora.

— Eu só apresentei uma solução prática.

— Prática para vocês — observou Catarina.

Aurora virou-se de imediato para o filho.

— Durante anos dissemos que devíamos passar mais tempo juntos. Agora que finalmente existe essa possibilidade, a tua mulher põe uma tabela de despesas em cima da mesa.

Rui passou a mão pelo queixo. Depois fechou o caderno e empurrou-o para perto de Catarina.

— Mãe, a Catarina tem razão.

Mariana soltou o ar com ruído.

— Claro. Ela já decidiu tudo.

— Não — Rui olhou diretamente para a irmã. — Quem decidiu tudo foram vocês. Sem mim e sem a Catarina. Até criaram uma conversa à parte para dividir uma casa que não é vossa.

— Queríamos fazer-vos uma surpresa.

— Surpresa é oferecer alguma coisa. Não é avisar os donos de que passam a dormir no quintal.

Aurora virou o rosto para a janela.

— Portanto, os teus pais não têm lugar aqui.

— Lugar há para visitas convidadas — respondeu Rui. — O que não há é autorização automática para alguém viver aqui semanas a fio só porque lhe apeteceu.

Catarina reparou na mudança no rosto do marido. A indecisão desaparecera. Rui falava sem aquele sorriso culpado que costumava surgir quando tentava agradar a todos ao mesmo tempo.

— Comprámos esta casa porque queríamos ter um sítio tranquilo para nós — continuou ele. — Passamos o verão a trabalhar nela depois do nosso emprego. Eu não comprei isto para passar as noites a preparar churrascos para a família inteira e depois andar à procura de onde dormir.

Tiago levantou as mãos, num gesto defensivo.

— Ninguém te pediu para fazer churrascos todas as noites.

— A mãe já decidiu que era preciso comprar uma churrasqueira maior.

— Foi só uma ideia.

— Ideias dessas discutem-se com os donos antes de aparecerem com crianças e começarem a escolher quartos.

Mariana corou.

— Hoje viemos apenas ver a casa.

— Então porque estavas a decidir onde ia ficar o sofá para vocês dormirem? — perguntou Catarina.

A cunhada abriu a boca, mas não encontrou resposta.

Aurora tentou desviar a conversa para outro terreno.

— Muito bem. Admitamos que não ficamos cá permanentemente. Mas viremos aos fins de semana. Não me digam que também nos vão apresentar uma conta de cada vez.

Catarina sorriu com calma.

— Podem vir quando forem convidados. Combinamos a data antes. Se estivermos em obras, se tivermos outros planos ou se simplesmente quisermos ficar os dois sozinhos, a visita fica para outra altura.

— Queres que eu marque hora para ver o meu próprio filho?

— O Rui pode encontrar-se convosco sempre que quiser. Mas trazer pessoas para uma casa que é dos dois tem de ser combinado comigo, tal como eu combinaria com ele se quisesse receber os meus convidados.

— Isto não é uma pousada nem uma colónia de férias familiar — acrescentou Rui. — Não se entra aqui por decisão de uma conversa de grupo.

Aurora franziu o sobrolho.

— Muito conveniente. Compraram uma casa e fecharam logo a porta a toda a gente.

Catarina abriu o caderno na página onde tinha registado os trabalhos já feitos.

— Quem de vocês veio ajudar-nos a montar a cozinha?

Ninguém respondeu.

— Quem apareceu para pintar a fachada?

Tiago desviou o olhar.

— Quem veio limpar o terreno, levar ramos, descarregar materiais ou, pelo menos, perguntar se precisávamos de ajuda?

Aurora encolheu um ombro, contrariada.

— Vocês não pediram.

— Exato. Fizemos sozinhos. Mas também ninguém se ofereceu. Em compensação, bastou verem as fotografias para começarem a decidir que quarto cabia a cada um.

— Não é preciso fazer contas a cada coisinha — disse Mariana.

— Eu não estou a contar coisinhas. Estou a contar o meu dinheiro e o meu tempo.

Catarina virou o caderno para os familiares. Na folha estavam assinaladas datas de entregas, prazos de pagamentos e uma lista de tarefas que se estendia até ao outono.

— Nós não recebemos um sítio pronto para férias. Fizemos um crédito, comprámos uma casa e ainda a estamos a pôr em condições. Aqui não há empregados. Ninguém vai cozinhar para uma multidão, limpar o que os outros sujam e adiar as obras para que todos descansem.

Tiago levantou-se.

— Acho que já percebemos tudo.

Chamou as crianças.

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