“Compraram uma casa? Que maravilha! Então está decidido: este verão passamos cá todos em família” — declarou Aurora, pousando as duas mãos sobre a mesa com um ar de satisfação absoluta

Histórias
Maravilhoso e inquietante, um verão de promessas frágeis.

e saiu para o pátio com elas.

Mariana juntou as malas, os sacos e os brinquedos espalhados. A expressão dela continuava fechada, carregada de ressentimento, mas já não voltou a levantar a voz nem a insistir.

Carlos foi o primeiro a aproximar-se de Rui.

— Tinhas razão numa coisa: devíamos ter telefonado antes.

— Deviam, pai.

— Vamos embora.

Aurora, porém, mantinha-se imóvel, como se ainda esperasse que alguém recuasse.

— Então é assim? Nem sequer almoçamos?

Catarina consultou o relógio, respirou fundo e respondeu com calma:

— Apareceram sem avisar. Nós não preparámos a casa para receber visitas.

— Mas trouxemos comida — contrapôs a sogra.

— Podemos almoçar todos juntos hoje — disse Catarina. — Mas, depois disso, regressam a casa. Qualquer próxima visita combina-se antes.

Aurora ficou visivelmente desarmada. Era evidente que esperava ser posta fora do portão naquele instante; aquela cedência, limitada e firme, apanhou-a desprevenida.

— Quer dizer que podemos ficar hoje?

— Durante algumas horas — esclareceu Catarina. — Não até ao fim do verão.

Tiago acendeu a pequena churrasqueira que Rui e Catarina já tinham comprado para a casa. Rui tratou da carne, Catarina lavou e cortou os legumes, e Mariana distribuiu a comida pelos pratos. Aos poucos, o ambiente deixou de estar tão pesado, embora Aurora quase não abrisse a boca.

Ninguém voltou a falar de quartos, colchões, tendas ou férias em família. As crianças brincaram no pátio, mas apenas nas zonas afastadas das ferramentas e dos materiais de obra. Desta vez, Mariana foi a primeira a vigiá-las e a impedi-las de se aproximarem do anexo.

Quando o almoço terminou, todos ajudaram a levantar a mesa. Mariana recolheu as coisas dos filhos, Tiago confirmou que a churrasqueira estava apagada e deitou água sobre as brasas. Ao cair da tarde, os dois carros deixaram finalmente o pátio.

Catarina fechou o portão e voltou devagar para junto da casa.

Rui estava sentado no degrau da entrada. Ao lado dele, continuava a bancada por montar, com as tábuas e os parafusos ainda espalhados.

— Estive quase a dizer que sim — confessou ele.

— Percebi.

— Pensei em dizer que faltava pouco para acabar agosto e que talvez conseguíssemos aguentar.

Catarina sentou-se ao lado dele, deixando entre os dois um pequeno espaço.

— E no outono vinham apanhar maçãs. No inverno apareciam para as festas. No verão seguinte, a Mariana trazia uma piscina insuflável e dizia que era para as crianças.

Rui soltou um riso curto, sem verdadeira alegria.

— Ela estava mesmo a pensar nisso.

— Por isso é que isto tinha de ser travado hoje.

Ele ficou a rodar uma chave de parafusos entre os dedos.

— Eu não queria criar uma guerra.

— Mas terias criado uma irritação permanente dentro da nossa própria casa.

— Eu sei.

Catarina virou-se para ele.

— As decisões que dizem respeito aos dois não podem ser tomadas só porque tens medo de magoar alguém.

Rui anuiu devagar.

— Também queria viver aqui com alguma paz. Só não sabia como dizê-lo à minha mãe.

— Agora disseste.

— Tarde, mas disse.

Catarina pegou nas instruções da bancada e abriu-as sobre os joelhos.

— Então vamos acabar isto. Se não, ainda fica aqui até ao outono.

Trabalharam até o sol desaparecer. Rui apertava as tábuas, Catarina confirmava se as peças estavam alinhadas e entregava-lhe os parafusos certos. Quando a bancada ficou pronta, levaram-na juntos para debaixo da macieira e sentaram-se ali, pela primeira vez naquele dia, sem pressa e sem tensão.

Alguns dias depois, Aurora telefonou a Rui. A chamada foi breve.

— A minha mãe quer vir no sábado — informou ele, ao entrar na cozinha.

Catarina pousou a lista de compras.

— Ela sozinha?

— Não. Vêm o meu pai, a Mariana, o Tiago e os miúdos.

— Para dormir cá?

— Não. Chegam de manhã e vão embora depois do jantar. Disseram que trazem comida e que ajudam no terreno.

— No sábado queríamos acabar o caminho.

— Eu disse isso. O pai ofereceu-se para ajudar com as tábuas, e o Tiago disse que podia levar os restos dos ramos.

Catarina ficou alguns segundos calada, a avaliar.

— Então podem vir às onze.

No sábado, chegaram exatamente à hora combinada. Aurora trouxe um bolo, Mariana apareceu com um conjunto de luzes solares para o jardim, e Carlos tirou da bagageira um par de luvas de trabalho.

Desta vez, ninguém entrou no pátio a dar ordens.

— Onde posso deixar a comida? — perguntou Aurora, segurando os sacos.

— Na cozinha, naquela prateleira que está livre — respondeu Catarina.

Mariana não foi espreitar quartos nem medir espaços com os olhos. Ajudou os filhos a trocar de roupa e perguntou a Catarina onde é que eles podiam brincar sem atrapalhar.

Tiago juntou-se a Rui para carregar os ramos cortados. Carlos ocupou-se das tábuas do caminho. Aurora chegou a abrir a boca para dar conselhos sobre a disposição do terreno, mas conteve-se a tempo e limitou-se a perguntar onde fazia falta ajuda.

Depois do almoço, voltaram todos ao trabalho. Ao fim da tarde, o caminho estava quase terminado, o pátio parecia finalmente desimpedido, e as crianças, cansadas de correr e brincar, foram elas próprias pedir para ir para casa.

Antes de se irem embora, Mariana ficou um instante junto ao portão.

— No próximo fim de semana não vimos. Já temos outros planos.

— Está bem — respondeu Catarina.

— Daqui a duas semanas podemos perguntar?

— Claro. Primeiro falamos e combinamos a data.

Mariana fez um aceno breve, sem insistir.

Aurora aproximou-se por último.

— Deixei-vos o resto do bolo.

— Obrigada.

A sogra hesitou, como se a frase seguinte lhe custasse.

— Hoje não atrapalhámos?

Catarina olhou para ela com atenção. A pergunta soara estranha, quase inédita, mas não vinha carregada de ironia.

— Hoje correu tudo bem.

— Então… até à próxima.

Os carros afastaram-se quando o sol de agosto já descia por trás das árvores.

Com o tempo, a família habituou-se a telefonar antes de aparecer. Em certos fins de semana, Rui e Catarina convidavam-nos para passar o dia. Noutros, diziam que não, porque havia obras para adiantar ou simplesmente porque queriam ficar os dois. Aos poucos, as recusas deixaram de ser recebidas como ofensas pessoais.

Aquela tentativa de se instalarem ali durante o verão inteiro passou a ser recordada com algum embaraço. Mariana nunca mais chamou “seus” aos quartos, e Tiago deixou de aparecer com sacos e planos feitos sem consultar os donos da casa. Aurora, por sua vez, perdeu o hábito de organizar a vida alheia como se a propriedade lhe pertencesse.

A casa continuava a ser paga ao banco, continuava a exigir esforço, tempo e dinheiro. Catarina nunca escondeu isso e também nunca permitiu que os outros tratassem a compra como se fosse um presente gratuito para toda a família.

Não fez uma cena, não cortou relações e não expulsou ninguém de forma humilhante. Bastou abrir a agenda, mostrar as obrigações reais e dizer em voz alta aquilo que Rui, durante demasiado tempo, não tivera coragem de afirmar.

Aquela casa era, antes de tudo, o lugar dos seus donos. As visitas eram bem-vindas — mas apenas quando eram verdadeiramente convidadas.

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