Trazia o rosto abatido, como se o dia lhe tivesse pesado nos ombros, e as sombras fundas debaixo dos olhos denunciavam que já mal aguentava mais. Ana esperou-o no corredor de entrada e segurou-lhe a mão antes que ele pudesse tirar sequer o casaco.
— Temos de falar a sério. E sem a tua mãe a ouvir.
Saíram para o patamar. Ana fechou a porta atrás de si, com cuidado, mas com firmeza.
— João, a tua mãe não se limitou a doar a casa. Ela assinou também uma renúncia ao direito de lá viver até ao fim da vida. A Mariana enganou-a de alto a baixo. E agora temos uma base para avançar judicialmente.
João encostou-se à parede, esgotado.
— Tribunal? A minha mãe nunca vai aceitar isso. Ela trata a Mariana como se fosse feita de cristal.
— E tu? Estás disposto a viver amontoado com a tua mãe num quarto, enquanto continuas a pagar uma hipoteca por dois? Achas normal a tua irmã enriquecer à tua custa?
Ele não respondeu.
— Eu não quero entrar numa guerra com a minha irmã — murmurou por fim. — Somos família.
— Família? — repetiu Ana, com uma amargura difícil de esconder. — A tua mãe veio parar à nossa casa porque a tua irmã a pôs na rua assim que ficou com a escritura na mão. Isso não é família, João. Isso é uma predadora a devorar a própria mãe. E, se ficarmos calados, um dia também vem atrás de nós.
João baixou os olhos. Ana percebeu o quanto aquilo lhe custava. Aproximou-se mais dele.
— Não te estou a pedir vingança. Estou a pedir justiça. Tu próprio disseste que foste afastado da herança. O teu pai deixou a casa para os dois. A tua parte devia pertencer-te.
Ele ergueu a cabeça devagar.
— Eu sei. Mas a minha mãe…
— A tua mãe confundiu amor com sacrifício. Pela Mariana, aceita humilhar-se. Por ti, nem sequer consegue admitir que mereces alguma coisa melhor.
João apertou as mãos em punhos.
— Então o que queres fazer?
— Quero que falemos com um advogado. Só para sabermos que hipóteses temos. Se houver forma de recuperar uma parte do valor ou uma quota do imóvel, temos obrigação de tentar. Caso contrário, vamos continuar apertados, cheios de ressentimento, a engolir isto todos os dias.
Depois de um silêncio pesado, João anuiu.
— Está bem. Amanhã vamos.
Na manhã seguinte, sentaram-se no gabinete de uma advogada. Era uma mulher na casa dos cinquenta, de cabelo grisalho preso num carrapito, que analisou a cópia do contrato com atenção meticulosa.
— Em termos formais, o negócio está bem feito — explicou ela. — Mas há aqui uma questão importante. Se a sua mãe declarar que assinou essa renúncia por erro, pressão ou engano, podemos intentar uma ação para pedir a anulação do contrato. Ainda assim, convém saberem que estes processos não são fáceis. Os tribunais não anulam doações de ânimo leve. Teremos de demonstrar que a filha prometeu cuidar dela e que, na prática, não cumpriu. Também será necessário provar que a senhora não compreendeu verdadeiramente as consequências do que assinava.
— Temos elementos — disse Ana. — Mensagens em que a Mariana a pressiona e a ameaça se ela não assinar. E há vizinhos que a viram sair de casa à pressa, praticamente sem nada.
A advogada assentiu.
— Então começamos por uma interpelação extrajudicial. Enviaremos uma carta à sua irmã a exigir a restituição do imóvel ou, pelo menos, uma compensação. Se ela recusar, avançamos com a ação.
Quando Teresa soube dos planos do filho e da nora, perdeu completamente o controlo.
— Querem meter a Mariana na prisão? — gritava ela. — Querem tirar-lhe o pouco que ela tem! Ela é minha filha! Prefiro morrer a enfrentá-la em tribunal!
— Ninguém está a falar em prisão — respondeu Ana, mantendo a voz calma. — Estamos a falar de devolver aquilo que foi obtido através de engano. Ou de pagar uma compensação. A senhora assinou uma renúncia sem ler, sem perceber o alcance do documento. A Mariana aproveitou-se da sua confiança.
— Não te atrevas a falar assim da minha filha!
João colocou-se entre as duas.
— Mãe, chega. Eu também sou teu filho. Também tenho direito ao que o pai deixou. Tu tiraste-me esse direito sem me perguntares nada. Entregaste tudo à Mariana. E agora queres que eu continue calado?
Teresa começou a chorar.
— Tu és homem, tens de ser forte. A Mariana sozinha não consegue.
— Ela não está sozinha — cortou Ana. — Tem namorados, amigas, créditos e uma casa nova. O João é que tem uma hipoteca e a mim. E eu não vou deixar a tua filha continuar a viver montada nas costas dele.
A discussão cresceu de tom. Teresa ameaçou ir-se embora, mas não tinha para onde ir. Ana, apesar dos choros e acusações, insistiu para que a advogada enviasse a carta. Assim que recebeu a interpelação, Mariana ligou ao irmão em fúria.
— Que raio pensas que estás a fazer? — guinchou ela do outro lado. — Queres roubar-me a casa? Eu sou tua irmã! Sou do teu sangue!
— Puseste a nossa mãe na rua — respondeu João, com uma frieza que surpreendeu até Ana. — Fizeste-a assinar uma renúncia enganada. Nem uma vez perguntaste como é que ela estava a viver. Que espécie de irmã és tu?
— Eu não vou devolver casa nenhuma. Vendo-a antes. E vocês não levam um cêntimo.
Ana tirou-lhe o telemóvel da mão.
— Se venderes, vais ter problemas sérios por burla. Já apresentámos queixa por causa do engano. Temos testemunhas. E também sabemos que a assinatura da tua mãe na renúncia foi falsificada. Uma perícia confirma isso sem dificuldade.
Do outro lado, instalou-se um silêncio brusco. Segundos depois, a chamada caiu.
Alguns dias mais tarde, Mariana apareceu à porta do prédio. Não vinha com o brilho habitual. Em vez do casaco caro que costumava exibir, trazia um blusão simples; o rosto estava pálido, mais magro, com uma tensão que lhe endurecia os traços.
— Quero falar com a minha mãe — anunciou.
Ana manteve-se à entrada, bloqueando a passagem.
— Ela não quer ver-te.
— Deixa-me entrar. Tenho esse direito.
— Perdeste todos os direitos no dia em que a expulsaste de casa.
Mariana tentou empurrá-la, mas Ana segurou a porta sem recuar. Nesse instante, João saiu do elevador.
— O que se passa aqui?
— A tua irmã veio armar confusão — disse Ana.
João aproximou-se de Mariana.
— Vai-te embora. Antes que eu próprio te ponha lá fora.
Mariana agarrou-lhe a manga com desespero.
— João, perdoa-me! Eu errei! Eu levo a mãe de volta para minha casa! Só queria resolver os meus problemas!
— Agora é tarde — respondeu ele. — Enganaste a mãe. Enganaste-me a mim. E eu já não vou continuar a fingir que temos uma família normal.
Mariana ficou imóvel diante dele, como se aquelas palavras a tivessem atingido em cheio.
