Era ele quem, tempos antes, a ajudara com a papelada e resolvera discretamente alguns assuntos que ela já não tinha forças para enfrentar. Não fez perguntas incómodas, não procurou saber mais do que precisava, não fingiu compaixão. Apenas aceitou, tratou do necessário e deixou-a seguir.
Ana mudou-se para um apartamento pequeno, noutro bairro, longe das ruas por onde costumava passar com João e longe dos lugares onde ainda a podiam reconhecer. Não era uma casa elegante, nem tinha móveis caros, mas havia silêncio. E, pela primeira vez em muito tempo, esse silêncio não a assustava. Pertencia-lhe.
Arranjou outro emprego. Mais simples, mais modesto, sem promessas brilhantes nem sorrisos interesseiros. A vida deixou de girar à volta de jantares, aparências, joias pesadas ao pescoço e conversas em que cada pessoa parecia medir a outra pelo preço do vestido, pelo apelido, pelo carro à porta. Tudo ficou mais calmo. Mais estreito, talvez, mas também mais verdadeiro.
Aos poucos, Ana começou a respirar sem se aperceber de que o fazia. Comprava pão ao fim da tarde, preparava café de manhã, caminhava sem pressa depois do trabalho. Havia dias difíceis, claro. Dias em que a memória se sentava ao lado dela como uma visita indesejada. Mas já não mandava nela.
Certa tarde, ao atravessar uma rua que evitava quase por instinto, deu por si diante do salão onde tudo acontecera. Parou. A tabuleta continuava no mesmo sítio, limpa, iluminada, como se nada de importante tivesse ocorrido ali dentro. Como se aquela noite tivesse sido apenas mais uma festa.
Ana ficou a olhar.
Recordou a voz de Maria, cortante, cheia de desprezo. Lembrou-se dos rostos dos convidados, primeiro curiosos, depois satisfeitos por assistirem a uma humilhação que não lhes custava nada. E lembrou-se, sobretudo, de João. Do modo como ele desviara os olhos. Do silêncio dele, pesado e cobarde, quando ela ainda esperava uma palavra. Uma só. Qualquer gesto que dissesse: “Basta.”
Mas ele não dissera nada.
E foi nesse vazio que ela compreendeu tudo.
Naquela noite, tinha saído dali com as mãos frias e o coração em pedaços. Agora, parada no mesmo passeio, percebeu que já não havia dor suficiente para a prender. Nem ódio. Nem desejo de explicações. Aquilo ficara para trás, como uma sala fechada onde já não valia a pena entrar.
Ana respirou fundo, permaneceu imóvel mais um instante e depois virou-se.
Ao dobrar a esquina, a luz mudava sobre os prédios, e a cidade parecia outra. Talvez fosse apenas ela quem já não era a mesma. Seguiu em frente, sem olhar para trás.
Ali começava a sua vida nova.
Sem eles.
