A nova narrativa de Maria era, como sempre, sobre o modo como o filho “se fizera sozinho”, vindo do nada até ao sucesso. João, por sua vez, recebia apertos de mão, agradecimentos e elogios com um sorriso seguro, distribuindo cumprimentos de um lado para o outro. Sentia-se no centro da imagem que tanto gostava de exibir: gente importante à mesa, comida cara, vozes respeitosas e a sensação de que todos o admiravam.
Então o empregado aproximou-se com a conta.
João nem se deu ao trabalho de olhar para o valor. Estendeu o cartão com um gesto descuidado, quase teatral. O terminal apitou uma vez. Silêncio. Depois, novo som curto. Operação recusada.
— Tente outra vez — pediu João, já sem o sorriso de há instantes.
O empregado repetiu o procedimento. Nova recusa. À terceira tentativa, o resultado foi exatamente o mesmo.
Maria levantou-se de imediato e avançou até ao balcão, enfrentando a responsável da sala como se estivesse diante de uma criada desobediente.
— Mas que pouca-vergonha é esta? O meu filho não tem problemas de dinheiro. Faça isso como deve ser, em vez de andar aí a carregar em botões ao acaso.
A administradora, uma mulher jovem de fato escuro e postura impecável, não se deixou intimidar. Fitou-a com uma calma quase clínica.
— O cartão foi bloqueado pela titular da conta. A senhora Ana retirou o acesso há poucos minutos. Ou liquidam a despesa em dinheiro, ou terei de chamar a segurança.
O salão inteiro pareceu prender a respiração. Um dos convidados pegou discretamente no telemóvel. Outro virou a cara, fingindo que nada tinha ouvido. João perdeu a cor. Agarrou no próprio telefone e ligou para a mulher. Chamava, chamava, mas ninguém atendia. Tentou novamente. Desta vez, a chamada nem passou.
Maria apertou-lhe o braço com força, sibilando entre os dentes:
— João, resolve isto já. Liga-lhe. Manda-a desbloquear o cartão. Tens noção da humilhação?
Mas João já não a escutava. Deslizava pelos menus do telemóvel, aflito, tentando lembrar-se de palavras-passe, acessos, códigos de outras contas. Nada. Tudo estava em nome de Ana, tudo dependia dela. Nem sequer conseguia recordar-se de quando ela preparara os documentos ou tratara das assinaturas. Ele limitara-se a assinar o que ela lhe punha à frente, sem ler uma linha.
Os convidados começaram a abandonar a mesa. Uns murmuravam desculpas sobre assuntos urgentes; outros levantavam-se em silêncio e dirigiam-se à saída. Um cliente mais velho, de fato cinzento, parou junto de João e deu-lhe uma palmadinha no ombro, com uma piedade carregada de veneno.
— Acontece, colega. Devia ter respeitado a sua mulher. Agora já vai tarde.
Foi o primeiro a sair. Pouco depois, seguiram-no todos os outros. Em menos de dez minutos, o salão ficou praticamente vazio. Restavam apenas João, Maria e a administradora, que segurava a conta com a mesma expressão impassível.
— Têm vinte minutos — informou ela, sem levantar a voz. — Depois disso, chamo a segurança.
Maria remexeu furiosamente na mala e conseguiu juntar algumas notas. Era pouco. João enfiou as mãos nos bolsos, encontrou mais algum dinheiro, mas continuava a faltar uma parte considerável. A administradora observava-os com uma curiosidade fria.
— Já telefonaram à sua mulher?
João não respondeu. Maria inspirou ruidosamente; manchas vermelhas começaram a espalhar-se-lhe pelo rosto.
— Aquela saloia… Como é que ela se atreveu a fazer isto?
