“Estou-me nas tintas para o teu salão de beleza!” rosnou João, exigindo que ela preparasse a mesa para a mãe

Histórias
É revoltante e injusto sacrificarem sonhos assim.

— …que ficasse a saber pela boca deles. Nesse jantar, tencionam anunciar a vossa situação… dizer, diante de todos, que acabou. Assim não teria margem para fazer uma cena.

Então era isso.

Era por isso que João insistira tanto. Era por isso que a sogra, de repente, se lembrara de juntar a família inteira. Não era um jantar. Era uma execução. Pública, calculada, humilhante.

Ana deixou-se cair numa cadeira. Tinha um nó duro preso na garganta, mas as lágrimas não vieram. Em vez disso, sentiu outra coisa a subir-lhe por dentro: raiva. Uma raiva viva, afiada, quase ardente. Há muito tempo que não sentia nada assim.

— Obrigada por me avisar — disse, com uma calma que nem ela própria reconheceu. — E o senhor… o que vai fazer?

Do outro lado, Miguel ficou alguns segundos em silêncio.

— Ainda não sei. Estou a tentar perceber. Temos dois filhos… — soltou um suspiro pesado. — Mas a si eu precisava de dizer isto: não os deixe transformá-la na vítima. Sobretudo não nesse jantar. Espero que entenda o que quero dizer.

A chamada terminou.

Ana permaneceu imóvel, com os olhos fixos no ecrã apagado do telemóvel. Depois levantou-se, foi até ao quarto e abriu o roupeiro. Na prateleira de cima estavam as coisas de João. Começou a tirá-las uma a uma, sem pressa e sem hesitação: camisas, calças de ganga, meias, camisolas. Dobrou tudo e colocou dentro da mala grande que tinham comprado três anos antes para umas férias a dois. Férias que nunca chegaram a acontecer, porque João, à última da hora, dissera que não podia ausentar-se do trabalho.

O telemóvel vibrou.

Era Maria: «Ana, o espaço não vai esperar. O proprietário deu-me até ao fim do dia. Decide depressa.»

Ana olhou para a mala aberta. Para as camisas empilhadas com cuidado. Para aqueles quatro anos da sua vida que, de um momento para o outro, tinham deixado de ser presente.

Pegou no telefone e respondeu: «Pago o sinal hoje. Encontro-me contigo às duas.»

Em seguida, abriu o computador portátil e entrou na conta bancária. A conta conjunta. A tal onde estavam as poupanças dos dois. Dois mil e setecentos euros. Ana transferiu o valor inteiro para o seu cartão. Simples assim. Um clique, e estava feito.

Sentou-se e esperou.

Quinze minutos depois, chegou a mensagem de João: «QUE RAIO É ISTO? ONDE ESTÁ O DINHEIRO?!»

Ana escreveu sem tremer: «No salão. Já agora, o jantar está cancelado. A comida está no frigorífico. Vem buscá-la tu. Ou manda a Carolina.»

Pôs o telemóvel em silêncio.

As chamadas começaram quase de imediato. Em meia hora, apareceram umas vinte tentativas. Depois veio uma mensagem de voz da sogra, carregada de indignação, ameaças e insultos velados. A seguir, João voltou a escrever, desta vez num texto cheio de palavrões e acusações.

Ana não abriu nada.

Limitou-se a encher uma mala com o que era seu: documentos, roupa, produtos de higiene, a maquilhagem que usava todos os dias. Chamou um táxi. Quando o carro chegou, saiu do apartamento sem olhar para trás.

Dentro do táxi estava quente. O motorista tinha jazz a tocar baixo no rádio. Do outro lado da janela, a cidade passava em manchas rápidas — a mesma cidade onde, quatro anos antes, ela se casara convencida de que estava a entrar numa vida feliz.

— Para onde vamos? — perguntou o motorista.

Ana encostou-se ao banco e, pela primeira vez naquele dia, sorriu.

— Para casa de uma amiga. E depois… vou abrir um salão de beleza.

Nesse instante, percebeu uma coisa simples e imensa: conseguia respirar.

Maria esperava-a à porta do espaço. Era pequeno, mas luminoso, com janelas largas viradas para uma rua movimentada. Lá dentro, havia cheiro a tinta fresca e a qualquer coisa ainda por começar.

— Chegaste cinco minutos atrasada — disse Maria, embora a tenha abraçado com força logo a seguir. — O que se passou? Estás branca como a cal.

Ana contou-lhe tudo. Sem dramatizar, sem se perder em detalhes. Apenas os factos, postos em ordem. Maria ouviu-a até ao fim, sem interromper. Quando Ana se calou, ela abanou lentamente a cabeça.

— Que canalha — murmurou. — Está bem. Primeiro assinamos o contrato. Depois tratamos do resto.

O proprietário apareceu pouco depois. Era um homem já idoso, de olhar calmo e bondoso. Estendeu-lhes os documentos. Ana assinou onde era preciso; a mão tremia-lhe, mas ela obrigou-se a manter a postura. O sinal era de quinhentos euros. Fez a transferência a partir do seu cartão.

E pronto.

O espaço era delas. Oficialmente.

— Boa sorte, meninas — disse o homem antes de sair. — Tenho a certeza de que vão fazer daqui uma coisa bonita.

Assim que ele fechou a porta, Maria tirou da mala uma garrafa de champanhe.

— Eu sabia que hoje isto ia ficar decidido — anunciou, enquanto servia a bebida em copos de plástico. — A nós. E à vida nova.

Beberam.

Ana sentiu um calor espalhar-se-lhe pelo peito. Não vinha do álcool. Vinha da certeza de ter dado aquele passo. Pela primeira vez em muito tempo, tinha escolhido a si mesma.

O telemóvel continuava a vibrar sem descanso. Ana olhou de relance para o ecrã: trinta e duas chamadas não atendidas. A sogra, João, e ainda alguns números desconhecidos.

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