“Estou-me nas tintas para o teu salão de beleza!” rosnou João, exigindo que ela preparasse a mesa para a mãe

Histórias
É revoltante e injusto sacrificarem sonhos assim.

Ana acabou por pôr o telemóvel em silêncio. Desta vez, sem hesitar. Que chamassem até se cansarem.

— Ficas em minha casa? — perguntou Maria, como se a resposta já estivesse decidida. — Pelo menos até encontrares um sítio teu.

— Se não te der trabalho…

— Trabalho? — Maria deu-lhe uma cotovelada leve no ombro. — Deixa-te de disparates. Agora somos sócias. Vamos levantar isto juntas, lembras-te?

Nessa noite, já na cozinha de Maria, ficaram à mesa com chá quente e folhas espalhadas à frente. Fizeram contas, listas, prioridades. Equipamento, fornecedores, obras, profissionais, publicidade… Havia um mundo inteiro por organizar. Mas, curiosamente, Ana não sentia pânico. O medo tinha pertencido à vida antiga, àquela em que respirava sempre com cuidado, como se estivesse a ocupar um espaço que não era seu. Agora, mesmo no meio da incerteza, sentia o chão mais firme.

Na manhã seguinte, quarta-feira, acordou cedo. Maria ainda dormia. Ana levantou-se devagar, vestiu-se sem fazer barulho e saiu para a rua. O ar de dezembro cortava-lhe o rosto, mas as montras brilhavam com luzes de Natal, fitas douradas e pequenos pinheiros enfeitados. As pessoas passavam apressadas a caminho do trabalho; num café, alguém ria alto; mais adiante, uma mulher fotografava uma árvore iluminada.

Ana entrou numa florista e comprou um ramo de rosas brancas. Sem motivo. Sem aniversário, sem pedido de desculpa, sem obrigação. Comprou-as porque quis. Porque podia.

Depois seguiu para o salão. O salão delas. Abriu a porta, entrou naquele espaço ainda vazio e colocou as flores no parapeito da janela. Em seguida, sentou-se no chão, mesmo no centro da sala, e ficou ali em silêncio, a olhar em redor. Não estava apenas a ver paredes por pintar e tomadas por mudar. Via o começo.

O telemóvel vibrou uma vez. Era uma mensagem de um número que não tinha guardado: «Sou o Miguel. Como está?»

Ana respondeu sem demora: «Estou bem. Obrigada. De verdade, estou bem.»

A resposta chegou pouco depois: «Fico contente. Eu também tomei uma decisão. Entreguei hoje de manhã o pedido de divórcio. Que fiquem juntos. Merecem-se um ao outro.»

Ana sorriu, quase sem dar por isso. Era estranho pensar que duas pessoas praticamente desconhecidas, unidas apenas pela traição de outros, pudessem tornar-se cúmplices daquele modo silencioso.

Perto da hora de almoço, Maria apareceu com a designer. Chamava-se Beatriz, era jovem, tinha o cabelo de uma cor impossível de ignorar e trazia um tablet onde ia desenhando ideias à medida que falavam. Discutiram tons para as paredes, a posição das cadeiras, os espelhos, a receção, a luz junto às janelas. Ana ouvia, observava e, aos poucos, começou também a sugerir. Uma parede mais clara ali. Um canto confortável para espera. Prateleiras discretas, nada pesado. Beatriz assentia e anotava tudo.

— Tem muito bom gosto — comentou ela, levantando os olhos do ecrã. — Nem sempre encontro clientes que percebam tão bem o espaço.

Ana agradeceu, com um aperto inesperado na garganta. Há anos que ninguém levava a sério uma opinião sua. Não a cortaram, não a ridicularizaram, não a empurraram para o lado. Escutaram-na. E isso, naquele momento, pareceu-lhe quase um luxo.

Ao fim do dia, quando Maria e Beatriz se foram embora, Ana ficou sozinha no salão. Sentou-se no parapeito da janela e ficou a ver a rua. As pessoas passavam apressadas ou distraídas, cada uma com a sua vida, com as suas perdas, alegrias, dívidas, promessas e pequenas urgências. E ela fazia parte daquele movimento. Já não era a mulher quebrada de João. Já não era a criada silenciosa da sogra. Era simplesmente Ana. Uma mulher prestes a abrir um salão de beleza. Uma mulher a começar de novo.

O telemóvel tocou.

Desta vez, ela atendeu. O número era de João.

— Estou? — disse, sem pressa, sem tremor.

— Ana… — a voz dele vinha baixa, insegura. — Onde estás? Vem para casa. Temos de falar…

— Não temos nada para conversar, João.

— Isto foi um erro. Foi uma confusão. A Carolina… ela é que… eu não queria…

Ana soltou uma pequena gargalhada, seca.

— Quatro meses de confusão? Curiosa forma de te enganares. Ouve bem: não vou perder mais tempo contigo. Na segunda-feira avanço com o divórcio. A casa fica para ti, não vou discutir isso. O dinheiro que levei é meu. Fui eu que o ganhei. E acabou.

— Mas, Ana…

— Nem “mas”, nem nada. E já agora, também não sou mais a tua Ana. — Ao dizer aquilo, sentiu qualquer coisa soltar-se dentro dela, como um nó antigo que finalmente se desfazia. — Fica com a Carolina. Sê feliz, se conseguires.

Desligou.

Bloqueou o número dele. Depois bloqueou o da sogra. E, um a um, todos os contactos que ainda a prendiam àquela vida ficaram do lado de fora.

Lá fora, os candeeiros acenderam-se. Começou a cair neve, leve e macia, quase irreal, girando no brilho das montras. Ana observou os flocos a descerem devagar e pensou que ainda era dezembro. O Ano Novo estava perto. E, se um ano novo podia começar dentro de dias, uma vida nova também podia começar ali, naquela mesma noite.

Levantou-se, apagou as luzes, fechou o salão à chave e saiu para a rua. No bolso, trazia o molho de chaves daquele espaço: pesado, concreto, verdadeiro. No casaco, o telemóvel estava finalmente calado. Na cabeça, fervilhavam planos, ideias, dúvidas boas, esperanças.

À frente dela estava tudo. Absolutamente tudo.

Daí a um mês, o salão abriria as portas. Chegariam as primeiras clientes. Maria trataria das manicures, Beatriz faria cortes e penteados, e Ana coordenaria cada detalhe daquele pequeno universo que era, enfim, seu. O seu trabalho. O seu risco. O seu sonho.

Quanto a João… que vivesse com Carolina. Que a mãe dele passasse agora a mandar nela, se Carolina permitisse. Esse já não era o enredo de Ana.

A história dela estava ali. Naquela cidade, naquela rua, naquele salão pequeno de janelas grandes. Um lugar ainda com cheiro a tinta fresca e a futuro. Um lugar onde, finalmente, Ana podia ser apenas ela própria.

Casa da Encarnação