“Porque mandei trocar as fechaduras, João” disse Ana, calma, enquanto via o ex-marido enfurecer-se e bater na porta do patamar

Histórias
A obstinação dele era ridícula; a decisão, justa.

Se fizessem as contas sem fantasia, talvez somasse ano e meio de trabalho efetivo; o resto do tempo passara-o estendido no sofá, a procurar a sua suposta vocação.

— Se querem levar isto para tribunal, façam favor — continuou Ana, sem erguer a voz. — Só não se esqueça de que o seu filho terá de pagar custas, advogado e tudo o mais. Tenho a certeza de que a Beatriz ficará encantada com essa perspetiva.

Do outro lado instalou-se um silêncio pesado, quase pegajoso. Teresa não era ingénua. Percebia perfeitamente que Ana tinha razão em cada palavra. Limitava-se, como tantas vezes antes, a tentar impor-se pela força do hábito, defendendo o seu menino crescido como se ele continuasse a ser uma criança indefesa.

— És uma mulher dura, Ana — murmurou por fim a antiga sogra, com amargura. — Não tens pinga de compaixão. O homem ficou sem nada, e tu ainda pareces satisfeita. Ao menos podias entregar-lhe as coisas de maneira decente, como gente civilizada.

— Estou a devolver tudo o que é dele, até às meias velhas e às canas de pesca partidas. Os sacos estão no corredor. Se está assim tão preocupada com o seu filho, venha ajudá-lo a carregá-los. Passe bem, Teresa. E cuide da sua saúde.

Ana desligou antes que a conversa voltasse ao mesmo círculo e pôs o telemóvel em silêncio. Ainda tinha trabalho pela frente.

Regressou ao hall de entrada. Quatro enormes sacos aos quadrados, daqueles resistentes e feios que parecem feitos para mudanças improvisadas, erguiam-se ali como montes absurdos. Levara duas noites inteiras a enchê-los. Abrira armários, gavetas e prateleiras, uma a uma, sem pressa e sem hesitação. Tirara camisolas deformadas pelo uso, calças de ganga gastas e desbotadas, cabos sem função aparente, peças de automóvel cuja utilidade desconhecia, e até uma coleção de copos de cerveja vazios que João, sabe-se lá porquê, guardava no alto dos armários. Foi também à varanda e arrastou de lá os pneus de inverno, que meteu em sacos de lixo grossos.

Enquanto empacotava tudo aquilo, não sentira saudade. Nem melancolia. Apenas uma irritação fria, misturada com repulsa. Era espantoso o volume de tralha que conseguia acumular alguém que, durante anos, quase nada trouxera para dentro daquela casa além de promessas ocas, críticas e exigências.

Ana aproximou-se da porta, rodou a lingueta brilhante da fechadura nova e espreitou para o patamar. O prédio estava calado. Não se via ninguém. Então começou a puxar os sacos para fora, um de cada vez. Pesavam muito; as pegas cortavam-lhe as palmas das mãos, mas ela continuou, obstinada, até os colocar todos do lado de lá. Depois empurrou os quatro pneus até ao canto junto ao elevador, alinhando-os com cuidado.

Por último, levou a caixa das ferramentas. Era uma mala de plástico rígido, pesada, coberta por uma película de pó de obras. João comprara-a havia uns dez anos, cheio de planos para montar sozinho os móveis da cozinha. No fim, desistira a meio e chamara um montador.

Quando todo aquele património ficou exposto no patamar, Ana entrou de novo. Fechou a porta. Deu duas voltas à chave. O som seco dos trincos a encaixar pareceu-lhe a música mais bonita do mundo.

Foi buscar um pano húmido e lavou minuciosamente o chão do hall. Esfregou as marcas sujas das botas de João, a poeira deixada pelos sacos, os pequenos vestígios daquela expulsão silenciosa. Queria limpar mais do que a sujidade visível. Queria tirar dali a sombra da presença dele: as reclamações constantes, os comentários sobre a sopa estar salgada, o cheiro enjoativo da colónia barata que ele despejava sobre si antes de sair para se encontrar com a nova namorada.

Passaram-se perto de duas horas. Ana já tinha preparado um jantar leve, peixe no forno com legumes, e deixara uma música suave a tocar ao fundo. Sentada à mesa limpa, saboreava a refeição e, sobretudo, a paz de estar sozinha, quando a campainha tocou com insistência.

O toque foi longo, impaciente, quase agressivo. Ana pousou o garfo sem pressa, limpou os lábios com o guardanapo e dirigiu-se ao corredor.

Espiou pelo óculo. No patamar estava João. Ao lado dele, Beatriz mudava o peso de um pé para o outro, mastigando pastilha com nervosismo enquanto olhava para o ecrã do telemóvel. Um pouco mais atrás encontrava-se um homem que Ana nunca vira, vestido com um fato-macaco azul de trabalho e segurando uma mala robusta.

O coração dela falhou uma batida, mas a inquietação durou pouco. Recompôs-se quase de imediato. Já imaginava o que vinha a seguir.

— Ana, abre! — berrou João, esmurrando a porta. — Vim com um técnico! Se não percebes a bem, arrancamos essa tua porta maravilhosa com aro e tudo! Tenho direito a entrar na casa onde estão as minhas coisas!

Beatriz fez uma careta de enfado.

— João, isto ainda vai demorar muito? Estou farta de estar aqui ao frio. E estes sacos cheiram a velho. Nós viemos buscar a máquina do café, não foi o que prometeste?

Ana destrancou a fechadura, mas deixou a porta presa pela corrente grossa de aço que, por precaução, mandara instalar juntamente com os novos fechos. Pela abertura estreita entrou um bafo de fumo de cigarro.

— Boa noite — disse Ana, com uma cortesia firme.

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