— O senhor é da empresa que abre fechaduras? — perguntou, mantendo os olhos fixos no homem de fato-macaco que estava no patamar.
O técnico assentiu, desconfortável, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. Parecia, de repente, muito menos seguro do que alguns segundos antes.
— Sim, boa noite. Fui chamado por este senhor. Disse-me que a mulher tinha perdido as chaves e que não conseguiam entrar em casa.
Ana respirou fundo. Quando falou, cada palavra saiu nítida, pausada, como se estivesse a ditar um auto.
— Este senhor é o meu ex-marido. Este apartamento é propriedade exclusivamente minha. Não foi comprado durante o casamento. Ele não tem aqui residência registada, não possui qualquer quota, não é coproprietário e não tem direito algum sobre esta habitação. Os sacos com os pertences dele estão aí, ao seu lado, no patamar. Se encostar uma ferramenta que seja à minha porta, chamo imediatamente a polícia e identifico-o como cúmplice de uma tentativa de entrada ilegal em propriedade alheia.
O homem recuou de súbito, como se o metal da porta lhe tivesse queimado os dedos antes mesmo de lhe tocar. Depois virou-se para João com uma expressão carregada.
— Ó amigo, está a gozar comigo? Eu vim fazer um serviço, não me meter em guerras de casal. Tem algum documento que prove que mora aqui? Escritura? Contrato? Qualquer coisa?
João ficou vermelho até às orelhas. Começou a apalpar os bolsos do casaco num gesto nervoso e inútil.
— Que diferença é que isso faz? Vivi aqui quinze anos! Tenho coisas minhas lá dentro! Eletrodomésticos! Ela que me entregue a máquina do café! E a televisão do quarto também! Comprámos aquilo juntos!
Ana estreitou os olhos, sem abrir mais a porta.
— Juntos? A televisão foi comprada a prestações em meu nome, e fui eu que a paguei durante ano e meio com os meus prémios do trabalho. Quanto à máquina do café, foi uma prenda dos meus colegas no meu aniversário. As garantias e os recibos estão guardados nos meus documentos.
A máscara de João caiu de vez.
— És uma interesseira, é isso que és! — cuspiu ele, já sem se preocupar em parecer digno. — A Beatriz tem razão. És uma velha amarga, invejosa, agarrada às tuas coisinhas. Fica lá com o teu apartamento e com as tuas máquinas todas, a ver se te servem de alguma coisa!
Beatriz soltou um riso pelo nariz e puxou para cima a alça da mala, que lhe escorregara pelo ombro.
— João, vamos embora. Isto é ridículo, estou cheia de vergonha de estar aqui plantada. Pegamos nas tuas tralhas e vamos jantar, que eu estou com fome. Depois compras-me uma máquina de café nova, melhor do que essa.
O técnico, sem dizer mais nada, deu meia-volta e começou a descer as escadas. Enquanto se afastava, resmungava qualquer coisa sobre clientes malucos que o faziam perder tempo e sobre chamadas que nunca mais aceitava sem confirmar documentos.
João descarregou a frustração no saco axadrezado mais próximo, dando-lhe um pontapé.
— Chama um táxi — rosnou para Beatriz.
— Eu? — indignou-se ela, erguendo as sobrancelhas. — Na minha conta só deixei dinheiro para as unhas. Tu és o homem, chama tu.
— O meu telemóvel está quase sem bateria — mentiu João, desviando o olhar.
Ana não precisava de ver o ecrã para perceber a mentira. Conhecia-o demasiado bem. Sabia que faltava ainda uma semana para ele receber, e também sabia que o dinheiro que tinha sobrado fora gasto depressa, no primeiro mês daquela proclamada “vida nova”: jantares, cuidados de beleza para impressionar Beatriz, pequenos luxos exibidos como prova de liberdade.
Sem acrescentar uma palavra, Ana fechou a porta. Retirou a corrente, voltou a trancá-la e rodou a chave até ao fim, uma volta após a outra.
Do outro lado, durante cerca de dez minutos, continuaram a chegar vozes abafadas. Beatriz queixava-se, João respondia de mau modo, os sacos raspavam no chão enquanto eram arrastados até ao elevador. Depois ouviu-se o som das portas metálicas a fechar. O elevador desceu, levando consigo, de uma vez por todas, os últimos restos daquele passado.
No hall instalou-se um silêncio absoluto, quase sonoro.
Ana encostou a testa ao metal frio da porta. Não sentia vitória. Também não havia nela prazer pela humilhação de João. O que a atravessava era apenas um cansaço imenso, fundo, como aquele que fica no corpo depois de uma doença grave, quando a febre passa e a pessoa percebe, enfim, que sobreviveu.
Foi até à casa de banho, abriu a torneira da água morna e lavou as mãos demoradamente. Ensaboou-as uma vez, depois outra, como se quisesse retirar da pele não só o pó dos sacos e o cheiro a tabaco que entrara pelo vão da porta, mas anos inteiros de cedências, discussões engolidas e humilhações disfarçadas de normalidade.
Quando levantou os olhos para o espelho, viu um rosto cansado. Havia sombras sob os olhos, a pele parecia mais pálida do que de costume. Mas o olhar, esse, estava limpo. Firme. Desperto.
Naquela casa não entrariam mais botas sujas de gente que a desrespeitava. Não haveria acusações atiradas à mesa como pratos partidos. Nem chantagens, nem concessões feitas à custa da própria dignidade. O espaço era dela. A paz também.
Na manhã seguinte, acordou cedo, antes do despertador tocar. A luz do sol infiltrava-se pelas frestas das persianas e desenhava riscas douradas na parede do quarto. Durante alguns instantes ficou imóvel, a escutar. Não havia ressonar ao lado, nem passos irritados na cozinha, nem portas de armários batidas com impaciência.
O apartamento parecia maior. Mais alto. Mais claro.
A ausência de João já não lhe surgiu como um vazio. Pareceu-lhe, antes, uma área aberta, finalmente desocupada, onde a vida podia voltar a caber.
Ana levantou-se sem pressa. Preparou café precisamente na máquina que, na véspera, quase servira de pretexto para mais uma invasão. Escolheu uma chávena de porcelana delicada, daquelas que antes reservava para visitas ou dias especiais, e encheu-a até meio, deixando o aroma espalhar-se pela cozinha.
Depois foi até à varanda. Sem os velhos pneus de inverno e sem as caixas esquecidas de João, o espaço parecia outro. A luz entrava sem obstáculos. Lá em baixo, a cidade começava a acordar: carros a passar, janelas a abrir, pessoas apressadas a caminho do trabalho.
Ana segurou a chávena com as duas mãos, soprou o café escuro e deu um gole. Estava quente, intenso, ligeiramente amargo.
Sorriu.
A vida não tinha acabado. Pelo contrário: estava apenas a começar. E, desta vez, as chaves ficavam somente nas suas mãos.
