Pedro encolheu os ombros, sem perceber a armadilha em que acabara de cair.
— Sim, ficou pronta ainda no ano passado. Só falta qualquer coisa no terceiro piso, mas isso não tem pressa nenhuma… Se for preciso, chamo um amigo e despachamos aquilo num instante. — Sorriu, cheio de orgulho, apontando para dentro. — Olha só para a sala. Ficou um mimo, não ficou?
Ana já não precisava de ouvir mais nada.
— Pois… João, estás feito — murmurou para si mesma, enquanto voltava para o carro com o sangue a ferver. — Durante um ano inteiro andaste a viver à minha custa. Isto eu não te perdoo.
Regressou a Lisboa quase sem se lembrar do caminho. Entrou no apartamento, abriu os armários e, com movimentos rápidos, meteu as coisas de João em duas malas. Roupa, sapatos, carregadores, documentos, tudo o que lhe pertencia foi atirado lá para dentro sem qualquer cuidado.
Depois pegou no telemóvel e, através da aplicação de localização, confirmou onde ele estava. O ponto no mapa assinalava um restaurante conhecido em Lisboa.
Ana chamou um táxi, colocou as malas na bagageira e seguiu para lá. Quando chegou, bastou olhar pela janela para perceber que não havia engano. João e Maria estavam sentados à mesa, animados, como se celebrassem uma grande vitória.
Com os dentes cerrados, Ana entrou no restaurante a empurrar as duas malas. Os empregados ainda tentaram aproximar-se, alarmados, mas ela passou por eles sem lhes dar atenção. Atravessou a sala inteira e parou mesmo ao lado da mesa do marido.
— Ana? Tu aqui? O que é que se passa? — perguntou João, ficando pálido de imediato.
Ela abriu a mala de mão, tirou de lá as cópias dos documentos da compra do apartamento e atirou-as para cima da mesa. As folhas escorregaram e foram cair diretamente dentro de um prato de sopa de marisco. O caldo saltou para fora, manchando a blusa branca de Maria, enquanto um camarão enorme foi parar às calças de João.
Ana ainda pensou em dizer algo elegante, controlado, talvez apenas: “Vocês perderam completamente a vergonha.” Mas a voz que lhe subiu à garganta trouxe palavras muito menos delicadas.
E então explodiu.
A sala inteira ouviu. Às mesas vizinhas, os clientes deixaram os talheres suspensos no ar e viraram-se, presos ao escândalo que rebentava diante deles.
— Parasita. Aproveitador. Mentiroso. Traidor. Durante um ano viveste com o meu dinheiro! Disseste-me que estavas aflito, que o trabalho corria mal, que não tinhas por onde te virar… e afinal estavas a comprar um apartamento para a tua mãe!
O olhar dela virou-se então para Maria.
— E a senhora? A senhora é uma sanguessuga. Eu dava dinheiro quando podiam perfeitamente ter pedido um crédito. Duvido muito que o seu filho tenha conseguido juntar quarenta mil euros num ano, sozinho.
Maria abriu a boca, indignada, mas Ana não lhe deu espaço.
— Fui eu que comprei a máquina de lavar. Fui eu que paguei os pneus de inverno do seu menino. Fui eu que paguei férias, telemóvel, computador, roupa… — virou-se para as pessoas no restaurante, como se precisasse que todos soubessem. — Até as coisas básicas deste inútil saíram do meu bolso.
João tentou levantar-se.
— Ana, ouve…
— Cala-te! — gritou ela, fazendo-o voltar a sentar-se. — Ainda não acabei.
O silêncio caiu pesado. Até os empregados tinham parado a alguns passos, sem saber se deviam intervir.
— Andaste este tempo todo a fingir que não conseguias dar conta da vida. Pedias-me dinheiro, fazias-te de coitado, e às escondidas juntavas para comprar casa à tua mãe. Que nojo, João. Que nojo.
Maria também tentou responder, mas Ana cortou-a de imediato com um gesto seco.
— Nem mais uma palavra. Agora falo eu.
Respirou fundo, mas a voz continuou dura.
— João, acabou. Vamos divorciar-nos. Vou contratar o melhor advogado que encontrar em Lisboa e vou recuperar tudo aquilo que me arrancaste com mentiras. As tuas coisas estão nestas duas malas.
Com um pontapé, empurrou uma delas para mais perto dele.
— E fica já avisado: se me ligares, se apareceres à minha porta, se te aproximares de mim a menos de um metro, vais arrepender-te. Não me interessa se és homem, se és maior, se achas que metes medo. Com mulheres não se faz isto. Nunca. Nenhum homem tem esse direito. E tu, muito menos.
Ana soltou o ar devagar, como se finalmente conseguisse expulsar de dentro do peito uma parte daquele veneno.
Depois pegou no prato de sopa que restava sobre a mesa e despejou-o sobre a camisa de João.
— O jantar acabou.
De cabeça erguida, saiu do restaurante, deixando atrás de si uma sala mergulhada num silêncio sombrio.
Ana e João divorciaram-se pouco tempo depois. O advogado que ela contratou revelou-se tão competente que o pai de João acabou por ter de vender o carro para ajudar o filho a cumprir os pagamentos.
João voltou para casa dos pais. Hoje, continua à procura de uma nova mulher: obediente, generosa e, de preferência, com dinheiro suficiente para o sustentar a ele e ainda ajudar a família. Afinal, pagar um crédito de habitação não é coisa que se resolva depressa. Até agora, porém, não encontrou ninguém disposto a ocupar esse lugar.
Seis meses mais tarde, Ana conheceu um homem bem-sucedido, independente e atento, que a tratava com um cuidado que ela já nem imaginava possível. Mais tarde, teve uma filha. Dizem que vive feliz no casamento.
Quando, recentemente, uma amiga lhe perguntou por João, Ana limitou-se a responder:
— Ninguém entra na nossa vida por acaso. Há pessoas que nos trazem alegria; outras ensinam-nos a ficar mais fortes.
Fez uma pequena pausa e acrescentou:
— A paciência é uma virtude, claro. Mas a vida é demasiado curta para suportarmos durante muito tempo aquilo que nos faz mal.
