O “Grand Palace” estava longe de ser um restaurante acessível. Ali, uma refeição dificilmente ficava por menos de trinta euros por pessoa. Era daqueles sítios reservados para datas especiais, jantares de negócios ou encontros em que se queria causar boa impressão.
Foi então que, ao passar por uma mesa mais afastada, junto às grandes janelas panorâmicas, Ana ouviu uma gargalhada conhecida. Virou a cabeça quase sem pensar.
Sentada a essa mesa, entre pratos de massa, travessas de marisco e uma garrafa de vinho branco, estava Maria. Usava um vestido novo. À volta dela, três amigas conversavam animadamente. Riam-se, brindavam, falavam alto, sem qualquer sombra de preocupação no rosto. Pareciam leves, satisfeitas, completamente à vontade.
Ana ficou parada por um segundo. Sentiu o impulso de se aproximar, de perguntar qualquer coisa, mas conteve-se. Não valia a pena fazer uma cena ali, no meio do restaurante.
Deu meia-volta e regressou à sua mesa.
— Está tudo bem? — perguntou o colega, ao reparar-lhe na expressão.
— Está — respondeu Ana, forçando um aceno. — Está tudo bem.
Mas não estava.
Nessa noite, não comentou nada com João. Tentou convencer-se de que talvez houvesse uma explicação simples. Talvez uma das amigas tivesse pago. Talvez estivessem a celebrar um aniversário. Talvez Maria, depois de tantos problemas, precisasse apenas de uma noite para respirar. Não era justo tirar conclusões precipitadas.
Ainda assim, a dúvida já se tinha instalado.
Dias depois, voltou a vê-la. Desta vez, num centro comercial, a um sábado, perto da hora de almoço. Ana tinha ido comprar roupa de cama e, ao sair de uma loja, distinguiu uma silhueta familiar junto à entrada de uma boutique. Era Maria, com dois sacos grandes nas mãos, o telemóvel encostado ao ouvido e um ar visivelmente satisfeito.
Desta vez, Ana não se afastou.
— Maria?
A rapariga sobressaltou-se. Virou-se de imediato. Durante uma fração de segundo, Ana julgou ver-lhe o medo atravessar o rosto. Mas Maria recompôs-se depressa e abriu um sorriso demasiado rápido.
— Ana! Olá! Que coincidência!
— Olá. — Ana olhou para os sacos cheios. — Andaste às compras?
— Ah… sim, isto… — Maria hesitou, apertando as pegas dos sacos. — Houve uns saldos enormes, sabes? Não resisti. Camisolas a três euros, calças quase dadas…
— Percebo — disse Ana, com um sorriso que lhe saiu rígido. — Tiveste sorte. E trabalho? Já conseguiste alguma coisa?
Maria baixou os olhos.
— Ainda não. Mas ando mesmo à procura, acredita. Já fui a várias entrevistas.
— Ainda bem. Espero que corra tudo bem.
Despediram-se com palavras educadas, e Ana continuou o seu caminho. Por dentro, porém, sentia qualquer coisa a apertar-se-lhe no peito. Saldos, claro. Aquela loja fazia promoções, isso era verdade. Mas os sacos estavam demasiado cheios. E Maria não tinha, de todo, o aspeto de alguém que contava os cêntimos para chegar ao fim do mês.
À noite, quando João se sentou no sofá a ver futebol, Ana aproximou-se e ficou ao lado dele.
— João, preciso de falar contigo.
— Agora? — perguntou ele, sem tirar os olhos da televisão.
— Sim. É sobre a Maria.
Só então João desviou a atenção do ecrã.
— O que se passou?
— Vi-a. Duas vezes. Primeiro no “Grand Palace”, a jantar com amigas. Depois, hoje, no centro comercial, carregada de compras.
João franziu o sobrolho.
— E então?
— Como assim, “e então”? — Ana respirou fundo, tentando não se exaltar. — Nós estamos a dar-lhe dinheiro para comida, renda e despesas básicas. E ela vai a restaurantes caros e sai de lojas com sacos cheios de roupa.
João soltou um suspiro, naquele tom paciente de quem achava estar a explicar o óbvio.
— Ana, as amigas podem ter pago o jantar. Tu não viste quem pagou a conta. E quanto às compras… ela própria disse que eram saldos, não foi? Querias que ela andasse vestida de trapos?
— Eu queria que ela não mentisse.
— Ela não está a mentir! — João levantou a voz. — Tu é que já estás contra ela à partida.
— Eu? — Ana sentiu qualquer coisa dentro de si estalar. — Eu, que aceitei ajudá-la, estou contra ela?
— Pensaste logo no pior! Não perguntaste, não tentaste perceber, não confirmaste nada. Preferiste acusá-la.
Ana levantou-se devagar.
— Sabes que mais, João? Está bem. Fica como quiseres.
Foi para o quarto, fechou a porta atrás de si e sentou-se na beira da cama.
