— Bloqueio o teu também.
— Tu… tu não podes fazer isso…
— Posso, sim. A conta é minha. O dinheiro entra ali porque sou eu que o ganho. E, a partir de agora, sou eu que decido a quem se entrega e para quê.
João ficou imóvel, a boca entreaberta, como se as palavras lhe tivessem faltado de repente. Ana observou-lhe o rosto e viu passar-lhe pelos olhos uma mistura amarga de orgulho ferido, indignação, raiva e — por fim, sem margem para dúvida — compreensão. Não foi imediato. Doeu-lhe aceitar. Mas estava a perceber que ela tinha razão.
— A Maria enganou-nos — continuou Ana, já com a voz mais controlada. — Mentiu-te a ti, mentiu-me a mim e mentiu à tua mãe. O dinheiro que lhe demos não foi usado para aquilo que ela dizia. E tu, em vez de admitires isso, viraste-te contra mim. Pois fica a saber, João: eu não participo mais nesta farsa.
— Eu… — Ele passou as mãos pelo rosto, exausto. — Eu não sabia.
— Terias sabido, se me tivesses ouvido desde o princípio.
João deixou-se cair no sofá e baixou a cabeça. Ana manteve-se de pé, diante dele, a olhar para baixo. Não sentia triunfo nenhum. Nem prazer por o ver assim. Sentia apenas um cansaço fundo, daqueles que se acumulam durante meses.
— E agora? — perguntou ele por fim, com a voz quebrada. — O que é que eu faço?
— Telefona à tua irmã. Diz-lhe que acabou. Que deve pedir desculpa à tua mãe. E que está na hora de procurar trabalho a sério, não de fingir que procura.
— E se ela…
— Se ela se recusar, a decisão é dela. Mas nós já não vamos alimentar este circo.
João assentiu, sem levantar os olhos. Ana soltou um suspiro, foi até à cozinha e pôs água ao lume para o chá. As mãos ainda lhe tremiam ligeiramente; o abalo da discussão não se dissipara por completo. Mas, por dentro, havia uma serenidade inesperada. Pela primeira vez em muito tempo.
Mais tarde, nessa mesma noite, João ligou a Maria. Ana não ficou à escuta. Sentou-se no quarto ao lado, mas, mesmo assim, chegavam-lhe fragmentos da conversa.
— Não, Maria, não vamos continuar a pagar… Porque mentiste… Sim, a mãe contou-me… Não, a culpa não é da Ana, é tua… Não quero discutir mais. A conversa acaba aqui.
Quando desligou, João demorou alguns segundos antes de ir ter com ela. Sentou-se em frente de Ana e ficou calado durante muito tempo. Depois falou, quase a custo:
— Ela disse que eu era um traidor. Que escolhi a minha mulher em vez da minha família.
— Eu sou a tua família — respondeu Ana, com uma calma firme. — O nosso filho é a tua família. A Maria é uma mulher adulta e tem de arcar com as consequências do que faz.
João acenou devagar com a cabeça.
— Desculpa — murmurou. — Por não ter acreditado em ti logo. Por te ter gritado.
— Aceito o teu pedido de desculpa. — Ana pousou a mão sobre a dele. — Mas não te esqueças disto, João. Guarda bem esta sensação: a de veres a pessoa que devia estar ao teu lado virar-se contra ti.
Ele apertou-lhe os dedos.
— Não me vou esquecer.
Passaram duas semanas. Maria não pediu desculpa nem a Ana, nem à própria mãe. Em compensação, e de forma quase milagrosa, arranjou emprego depressa. Ao que parecia, quando o dinheiro fácil desaparece, a motivação costuma nascer de um dia para o outro.
Helena telefonou a Ana para lhe agradecer por lhe ter aberto os olhos.
— Sabes, Ana, eu sempre pensei que só a estava a mimar um bocadinho — confessou, com tristeza. — Coisas de mãe. Amor de mãe. Mas agora vejo que, sem querer, criei alguém habituado a viver à custa dos outros.
— Nunca é tarde para mudar — respondeu Ana.
Numa noite, já deitados, João puxou-a para si e abraçou-a com cuidado. Depois disse, num murmúrio junto ao ouvido dela:
— Obrigado por não me deixares transformar num capacho.
Ana sorriu no escuro.
— Eu vou estar sempre do teu lado — disse. — Mas só se tu também estiveres do meu.
Ele beijou-lhe a têmpora.
— Vou estar. Prometo.
E Ana acreditou nele. Porque, às vezes, uma pessoa precisa de uma lição dura para perceber o que realmente importa. João recebera a dele. E, ao que tudo indicava, tinha aprendido.
Quanto ao cartão da Maria, esse continuou bloqueado.
Para sempre.
