“Estás a fazer troça de mim?! Ando a matar-me em dois empregos e ainda sou eu que tenho de sustentar os teus parasitas!” gritou Ana, exausta, apertando as têmporas no sofá

Histórias
Esta rotina injusta sufoca qualquer esperança.

João estava afundado no cadeirão, de olhos presos no ecrã da televisão, embora fosse evidente que não prestava atenção a nada. Ana recolhia os pratos da mesa devagar, concentrada em não o encarar.

Foi ele quem quebrou o silêncio.

— Era mesmo preciso fazeres aquilo à frente da minha mãe?

Ana pousou um prato com mais força do que pretendia.

— E era preciso a tua mãe meter-se na nossa vida como se mandasse cá em casa?

João respirou fundo, tentando manter a voz baixa.

— Ana, eu sei que estás cansada. Percebo isso. Mas há maneiras…

— Maneiras de quê? De dizer a verdade? João, eu já não aguento mais. Todos os meses é a mesma história: ora a tua mãe precisa de dinheiro, ora é a tua irmã que aparece com uma emergência qualquer…

Ele levantou-se e aproximou-se dela.

— Isto é só uma fase. Eu vou arranjar um emprego decente, vais ver.

Ana virou-se para ele, com um cansaço antigo nos olhos.

— Quando, João? Quando é que esse emprego “decente” aparece? E, quando aparecer, quanto tempo vais ficar nele? Um mês? Dois?

A expressão dele endureceu.

— Então já nem acreditas em mim?

Ela sentou-se numa cadeira, como se as pernas lhe tivessem falhado.

— Estou farta de acreditar. Farta de esperar. Farta de carregar tudo sozinha, mês após mês, como se fosse minha obrigação sustentar esta casa e ainda a tua família inteira.

Nessa noite, Ana não conseguiu dormir. Ficou deitada de olhos abertos, a olhar para o teto, enquanto fazia contas à própria vida. Tinha trinta e dois anos. Sete deles passados naquele casamento. E depois? Iam seguir-se mais sete anos a trabalhar por dois? Ou por três, se contasse com os “empréstimos” sem fim que os parentes de João lhe arrancavam?

De manhã, levantou-se com uma decisão tomada. Durante o pequeno-almoço, falou sem rodeios:

— João, precisamos de conversar a sério.

Ele olhou-a desconfiado.

— Sobre o quê?

— Sobre dinheiro. Sobre a tua família. Sobre nós.

Ana foi buscar uma folha que preparara na noite anterior. Tinha anotado ali, um por um, todos os valores que a família dele pedira “emprestados”.

— Olha bem. Nos últimos dois anos, a tua mãe pediu trezentos euros. A Maria levou quatrocentos e cinquenta. Ao todo, são setecentos e cinquenta euros. Setecentos e cinquenta, João. Para nós, é muito dinheiro.

Ele pegou na folha. À medida que lia, o rosto tornava-se mais fechado.

— De onde tiraste estes números?

— Eu aponto tudo. Cada euro. Sabes quanto é que devolveram? Nada. Nem um cêntimo.

— Ana, às vezes os familiares passam por dificuldades…

— Toda a gente passa! A diferença é que os meus pais, se precisarem de ajuda, pensam duas vezes antes de me telefonar. Os teus exigem dinheiro como se tivessem direito a ele. E eu é que pago as consequências.

João ficou calado. Ana continuou, agora com a voz firme:

— Já decidi. A partir de hoje, não sai mais um euro para os teus parentes. Se voltares a tirar dinheiro do nosso orçamento sem me perguntares, eu peço o divórcio.

Ele empalideceu.

— Tu… estás a brincar?

— Nunca falei tão a sério. Eu amo-te, João. Mas não vou continuar a ser a fonte de rendimento da tua família.

João levantou-se bruscamente da mesa.

— Isto é um ultimato?

— Chama-lhe o que quiseres. Eu chamo-lhe limite.

Ele saiu da cozinha furioso e bateu a porta de entrada com tanta força que os copos estremeceram no armário. Ana permaneceu sentada, a olhar pela janela para a chuva que começava a cair.

Uma hora depois, foi Maria quem telefonou. Ana deixou tocar. Logo a seguir, apareceu o nome de Helena no ecrã. Também não atendeu.

Ao cair da noite, João voltou. Vinha irritado, cambaleante, com o cheiro a álcool a precedê-lo.

— Estás satisfeita? — atirou ele ainda da entrada. — A minha mãe está no hospital e a minha irmã está aos gritos, num ataque de nervos!

Ana não se alterou.

— Isso é problema delas.

— Tu és… és uma egoísta!

— Talvez. Mas sou uma egoísta que tem o direito de decidir o que faz com o próprio dinheiro.

João avançou na direção dela, parando a poucos passos.

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